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Archive for janeiro \17\+00:00 2012

POEMINHA PARA O BIAL LER

Não é justo que o negro
pague sozinho
por este estupro.

Também pague o Bial,
pague o Boninho,
pague a TV
de Roberto Marinho.

Quem fez a merda,
patrocinou a festa,
trouxe o vinho.

Ah, mano, brother,
meu irmão.

Por causa do crime
o Brasil todo, sim, 
ao paredão.

Inclusive eu,
que faço esse poema
sem jeito.

Perco tempo
com este assunto.

Eu, sem talento.
Eu, bundão.

Covarde,
sem ter o que fazer
ligo a televisão.

E vejo.

A toda hora
o Bial citar
o Velho Guerreiro.

Aquele mesmo
que cuidava do traseiro
da Rita Cadillac
com o mesmo respeito.

Com que a câmera come,
hoje em dia, cada silicone,
curva, calcinha.

Acho que virei puritano,
melhor eu ficar na minha.

Só não posso concordar
que apenas o negro
tenha de pagar pelo abuso
coletivo.

Por debaixo dos panos,
todas as noites,
sempre foi este
o nosso programa
preferido.

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LEITORES INVEJOSOS

Nossa, eu tenho inveja de você. Assim: de ter lido todos esses livros. Fico vendo. E desejando. Disse-me um jovem, novinho, com seus quinze anos, um dia, quando viu as minhas estantes.

Retruquei: sou eu quem tem inveja de você. Sabe por quê? Você lerá pela primeira vez livros como Dom Quixote, já leu? Lerá pela primeira vez Jean Genet. Inaugurará as páginas de Garcia Lorca. Terá virgem contato à obra do Rosa, do Graciliano. Adentrará, curioso, o universo kafkiano, clariceano. Descobrirá Bandeira, Drummond. Nascerá em Pessoa sua nova pessoa.

Aleluia, ave!

Entende? Toda vez que vejo alguém à flor da idade, uma criança, lendo pela primeira vez um grande livro, eu me lembro – e invejo – esta sensação: a alma sendo invadida por um furação, o mundo nascendo em nossas mãos, a origem do silêncio, do pensamento, a descoberta desta paixão.

Para uma vida toda que, em você, só está começando.

Boa viagem, garotão.

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RAFINHA BASTOS, EU?

Longe disso. Não tem graça a piada. Mas é que vieram me perguntar: a literatura tem de ser politicamente correta? Tem de ter uma mensagem, assim, moral da história? Edificar a humanidade? Ave! Sabe o Rafinha Bastos, não sabe? Sei, sim, disse eu. Mas em vez de responder, assim, na lata, resolvi ler cinco microcontos meus, inéditos (veja abaixo). Meu Deus! A discussão foi calorosa. E você, o que acha? Abraços e – apesar de tudo – bom final de semana. E até segunda. Rezemos ao Senhor e beijinhos na bunda. Fui.

[1]

FINAL FELIZ

Depois de matar toda a família,
não se matou.

[2]

– Estou grávida.
– Então quer dizer que eu vou ser vovô?
– Não, vai ser papai.

[3]

Não sei
onde eu estava com a cabeça
quando o decapitei.

[4]

– Assalto seguido de estupro?
– Infelizmente só assalto, doutor.

[5]

– Melhor abortar.
Disse o padre, aflito.

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NO MEIO DO CAMINHO

No meio do caminho tinha uma pedra 
tinha uma pedra no meio do caminho 
tinha uma pedra 
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento 
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho 
tinha uma pedra 
tinha uma pedra no meio do caminho 
no meio do caminho tinha uma pedra.

[ “No Meio do Caminho”,
poema de Carlos Drummond de Andrade,
nunca esteve tão atual.

Na foto acima, dona Tereza Beatriz Viega,
68 anos, procura pela nora, viciada
em crack e grávida, pela região da
Cracolândia,
centro de São Paulo ]

Fonte:
Folha de S.Paulo.
Foto de Luiza Sigulem.

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O ALVO DO POETA

Eu sempre digo de Francisco Alvim por onde passo.

O poeta mineiro que mora faz tempo em Brasília.

Eu digo que não há ninguém mais artista plástico do que ele. Mais fotógrafo do que ele.

Mais relojoeiro.

Alvim para o tempo quando escreve.

Curto, conciso.

Alvim no alvo.

Certeiro.

Eis um dos clássicos dele, abaixo:

MAS

é limpinha

Notem a paradinha que ele dá. Uma frase coloquial, popular, ganha em força pelo deslocamento que ele faz. O “Mas” vira título irônico. Perverso. O espaço entre o título e o único verso é o que nos pesa, nos denuncia. Hipócritas que somos, gentinhas demais.

Alvim joga a bomba e vai embora.

Por isso, e por outras, festejo o novo livro do poeta. Saído no ano passado. O Metro Nenhum, publicado pela Companhia das Letras (capa acima). Claro, um dos melhores volumes de poesia que li em 2011. E viva!

Eis este outro poeminha, já do livro novo:

AVALIAR

Quem sou eu
para

Outra vez o desenho que ele faz na página. No espaço em branco. No que falta. Alvim é mestre no tanto que ele nos diz sem dizer à força. Aprendo com o Alvim a ser menos casguita na minha escrita. Será que consigo?

Esse olhar urgente – temido e tímido.

Como Manuel Bandeira que se anunciava um “poeta menor”, Francisco Alvim, quieto, na dele, é devastador. De igual grandeza. Doente em sua beleza. Como nesse outro poema, abaixo, retirado idem do livro novo.

ACONTECIMENTO

Quando estou distraído no semáforo
e me pedem esmola
me acontece agradecer

Eta danado!

Juro que um dia eu chego lá.

O poeta haverá de, mansamente, me retrucar.

Onde? Ora, por quê? Não deseje a minha sorte.

AFINAL

Jamais pensei que chegaria vivo
ao dia da minha morte

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SEM PAPAS NA LÍNGUA

O Papa diz que casamento gay é uma ameaça à humanidade. Ave! Mais essa agora. Ora. Isto já faz tempo. Diz-me um amigo. Por isso que padre não pode casar. Meu amigo ri. Até gargalhar. Outro grita. Afirma. Com razão. Eu nunca precisei do Papa para nada. Ainda pequeno. Meu coração. Com aquele mistério de sentimento. No peito. Não foi para ele que eu rezei. Com medo. Assim. De que não fosse certo. Amar uma pessoa do mesmo sexo. E completa. A ele não agradeci a dádiva do primeiro beijo. Nós ali. De cabelos molhados. Na praia de Pau Amarelo. Descobertos. Ao Papa nunca pedi conselho. Aprovação. Nenhuma oração eu fiz. Quando fui feliz. Ou quando fui infeliz. Em meio ao deserto. Abandonado. Naquele instante em que a paixão acaba. Entende? O mundo desaba em cima da gente. Eu entendo. Porque lembro de situação igual. Carnaval quando vira cinza. Nessa hora. Não foi para o Papa que eu pedi clemência. O Papa sempre de costas. Meu outro amigo barbariza. Sua Santidade deixa à míngua os próprios padres. Que ardem de paixão. Enclausurados. Coitados. Eu nunca confiei na igreja católica. Caduca e preconceituosa. De fato. Eu falo. Meu amigo fala. Para esse tipo de pregação nunca dei bola. Continuei a minha vida. Em paz. Até que um dia. Eis que me apareceu esse rapaz. Depois de muito penar. Minha alma encontrou companhia. Dessas raras. Mais que milagrosas. Mágicas. De a gente enfrentar a família. A sociedade. Eu me orgulho disto. Nunca precisei do Papa para nada. Meu amigo repete. Não foi ele quem me abençoou. Celebramos nós mesmos a nossa felicidade. Aleluia! O Papa nunca foi dono deste nosso amor.

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A RAÇA HUMANA

Não. Cachorro não é gente. Não pode ser. Posto no colo feito um bebê. Mais feliz do que uma pessoa. Não pode. Usar perfurmes. Nunca. Nem casacos de lã. Cachorro não sente frio. Não usa cachecol. Nem gravata. Não pode ter. Um apartamento só para si. Cachorro não está nem aí. Cachorro é falso. Não é o melhor amigo do homem. Cachorro assalta. Rouba para comer. Cachorro abana o rabo para você. Para qualquer um. Cachorro morde para valer. Cachorro não é de confiança. Cachorro não gosta de criança. Não gosta de velhos. Não gosta de passear ao seu lado. Encoleirado. Cachorro gosta é de cheirar mijo. Cachorro gosta é de lixo. De osso duro de roer. Cachorro não gosta de ração. Não tem coração. Cachorro se aproveita. Do homem solitário. De quem anda desligado. Cachorro detesta tomar banho. Gosta é de ficar sujo. Fedido. Cachorro caga na rua. E acha graça quando alguém vem limpar a sua bunda. Cachorro não tem bunda. Mas todo dono acha que cachorro tem bunda. Porque coloca o cachorro sentado no sofá. Em mesa de restaurante. Na cama. Cachorro não gosta de cama. Muito menos de televisão. Cachorro não gosta de andar de carro. Detesta viajar. Cachorro gosta é de se perder. Cachorro não quer ser procurado. Cachorro bom foge de casa. Resolve dar um tempo. Adora sumir na estrada. Cachorro de verdade. Assim. De raça. Em tempo: a foto aí de cima é de Alessandro Shinoda idem.

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SHAKESPEARE NA CRACOLÂNDIA

Escrever ou não escrever? É pouco o que eu escrevo. Diante do que li hoje na Folha de S. Paulo. Em reportagem sobre a Cracolândia. Se tivesse sido eu o autor das frases. Ali faladas. Diriam com certeza. Como esse escritor viaja. Cachimba-se na maionese. Pega pesado. Tipo. Quando alguns de meus personagens soltam a língua. Esbravejam. Defendem seu lar. Custe o que custar. Brigam por um sofá. Uma mobília. Pedem disciplina. Respeito. Tratam bem suas visitas. Quer um pouco de Coca? A gente tem. Umildemente. Tem. Ah. Meu caro. A ficção é que não está com nada. Diante da fala do povo. Morto. Zumbis zangados. Expulsos de suas moradas. Covas rasas. Porém honestas. A ficção dá pena. É uma merda. O que fazer? Se correr a polícia pega. A gente não pode fumar. Não pode dormir e nem descansar. Está difícil. E agora? Em Higienópolis o pessoal já está ligado. Eles estão subindo. Essa gente diferenciada está vindo para cá. Aqui é muito mais sossegado. Argumenta um dos usuários. A Cracolândia. Essa. Ah. Já está com seus dias contados. Aquele lugar não tem mais futuro. Se pagarem minha passagem. Juro. Eu volto para Paraíba. Para a sua terra. Com a ajuda de Nossa Senhora Aparecida. Lá construirá o seu casulo. Seguro. Um lugar para uma rede. Levantará uma parede onde possa escrever. “Você conquistou meu coração”. Ou divulgar a obra de Shakespeare. “O mundo é um palco”. Ser ou não ser? Não vê? Será sempre esta a grande questão. Em tempo: a foto aí de cima, que saiu na primeira página da Folha, é de Alessandro Shinoda.

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12 FAÍSCAS

Gosto de ler poesia, sempre. Ela limpa a minha prosa, orienta o meu fôlego, me dá ritmo, me inspira contos/cantos. No ano passado – e já no comecinho deste ano – tenho revisitado poetas clássicos. E tenho posto a leitura em dia de alguns livros de novos poetas. Em tempo: desses que li, novatos (e não tão novatos assim), listei curtos versos – às vezes uma frase só, quase “epígrafes”. Assim, fraseados para os quais eu fico olhando, proseando com eles, imaginando narrativas a partir dessas faíscas – confira abaixo 12 delas.

[1]

em torno da cama
como de um navio partido
nossas roupas nossos cigarros
nossos livros afogam-se
a seco

[ do livro “A Arte das Armadilhas”,
de Ana Martins Marques ]

[2]

Amara,
a resposta é tua sombra.

[ do livro “Esse Senhor”,
de Artur Rogério –
baixe grátis aqui ]

[3]

Nenhuma rodoviária é feliz.

[ do livro
“Mastodontes na Sala de Espera”,
de Bruno Brum 
]

[4]

pálpebra ou porta, é uma visão.

[ do livro
“Livro Ruído”,
de Davi Araújo ]

[5]

cada poema é um hotel.

[ idem ]

[6]

a linguagem é casa cheia.

[ do livro
“A Fachada e os Fundos”,

de Edson Falcão 
]

[7]

corte de cabelo grátis
só no hospício.

[ do livro “Carnavália”,
de Gabriel Pardal ]

[8]

saudade

derrama-se
o chá da xícara
até o colo queimar.

[ do livro “Água para Viagem”,
de Lorena Martins 
]

[9]

Nasci de um abismo
e nele me equilibro.

[ do livro “A Cartografia da Noite”,
de Micheliny Verunschk 
]

[10]

Do lado de dentro
não há avesso.

[ do livro “O Corpo Arcaico”,
de Renato Pessoa
]

[11]

Uma rua à queima-roupa.

[ do livro “Pássaro Ruim”,
de Rodrigo Madeira
]

[12]

sem a morte
não teríamos nascido.

[ idem ]

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O FIM DO MUNDO

Vieram e jogaram uma bomba atômica. Nada. A sala continuou de pé. Os armários da cozinha. Pois é. O quarto da mulher. Intacto. Antes tocaram fogo. Na Favela do Moinho. Nos barracos. Dentro do esgoto. Mandaram o povo para longe. Da fumaça. As estruturas estão abaladas. Disseram. Estamos preocupados com a família de vocês. Argumentou a defesa civil. Já pensou? Aqui não é mais lugar para se viver. Aí mandaram destruir o que sobrou do incêndio. Para você ver. Milhões de reais a prefeitura gastou. Com os explosivos. Porque os trens têm de voltar a andar nos trilhos. Pô! É nossa preocupação o transporte público. É preciso chegar em casa. Sem atraso. O trabalhador. Mas com este dinheiro da demolição não dava para levantar outras moradas? Que nada! Aqui faremos um parque. Disse o prefeito Kassab. Ave! Tudo agora na cidade vira parque. Para as crianças brincarem. Antes que o mundo acabe.

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