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Archive for abril \10\+00:00 2012

CONTINHO SEM NOME

Na sala já procurou. Embaixo do sofá. Perto da TV. Nada. Foi de novo à cozinha. No freezer. Armários. Pia. O bebê não estava. Tão pequeno. Daria no microondas? Exagero. Na máquina de lavar revirou as fraldas. E fronhas. Não se lembrava de ter ido à rua. À farmácia. Hoje não saí de casa. Não pegou o carro. Detesta dirigir. É o fim. Voltou ao elevador. Confirmou. Na área de serviço. Perto do lixo nem cheiro. Teve medo quando viu. Restos de comida. Vou bater à porta do vizinho. Isso não é coisa que se faça. Desfazer-se assim do churrasco. Ossinho. Cupim. Costela. Rodelas de cebola. Ligarei para a polícia agora. Não tem nem uma hora. O bebezinho em meus braços. Jurou que babava. Sonolento o recém-nascido. De volta mais uma vez ao apartamento. Aqui não está. E aqui também não. Atrás dos livros. Teria sumido entre um parágrafo e outro? Nunca. Isto não é ficção. Gravidez imaginária nem pensar. Dor de verdade. E bem real. Cadê meu bebê? Merda! Puta que pariu! Gritava pela janela. À rua. Quem viu?

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SER OU NÃO SER ESCRITOR?

Sábado passado tive uma aula de “literatura”.

Fui ver o espetáculo PPP@WllmShkspr.Br.

Há tempo que eu estava para conferir este clássico dos Parlapatões. Trinta e sete peças de Shakespeare devidamente enxugadas pelo trio de palhaços – na foto, Alexandre Bamba, Raul Barreto e Hugo Possolo.

Porra! Até agora eu rio solto, lembrando das peripécias dos três para dar conta, em 90 minutos, de toda a obra do dramaturgo. Resumos estapafúrdios, ritmo frenético, ironia em sincronia – numa direção (aos sem-direção) de Emílio Di Biasi.

Circo, chanchada, fanfarra – tudo numa espécie de homenagem a esse humor que nos faz falta. E que esses brilhantes atores resgatam, elevam, pisam e mijam em cima com propriedade.

Saí leve do teatro. E pensando algo muito curioso: todo escritor contemporâneo deveria beber na fonte disto que o verdadeiro teatro tem. Essa irmandade, não sei. Esse senso afiado de comprometimento. Explico: há quem escreva contos e romances e poesia e pôstes e ache que só isto basta para movimentar a cena – prêmios, publicações, chás de açucena.

Neca!

O artista, creio, sempiternamente deve exercitar idem seu ofício além dos parágrafos. De quando em quando, pular fora do casulo. Explico melhor: Alexandre, Raul e Hugo, além de comediantes, são militantes de um espaço que mudou a cara ali da Praça Roosevelt. Vão eles além do riso fácil, do conforto confortável, dão a cara a bater. E batem.

Erguem, malabarísticos, um exemplo artístico a ser seguido: essa cumplicidade que está, sim, na carpintaria da peça – no olho no olho, na confiança recíproca. Mas vai além dela. Os Parlapatões nos enchem de autoestima. Ali, de alguma forma, ao vê-los, celebramos o Chico Anysio, o Millôr. E, sobretudo, o nosso país. É preciso melhorá-lo. Os Parlapatões já fazem isto. Há tempo. Com graça e determinação. Por isso eles são o que são.

Como escritor que sou, eis a minha (e a nossa) grande questão.

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MEU PRIMEIRO NAMORADO

Jesus era meu amiguinho. Meu irmão mais velho. Ficava Ele pregado à parede do meu quarto. E eu colava os olhos Nele. Sozinho. Tadinho! Meninote no Recife. Aquele mistério de corpo. Jesus era um pão. Barriga esguia. Ferida que eu pedia para cuidar. Em silêncio. Cheguei a perguntar um dia. Pai. Por que não levam Jesus para o hospital? E o meu pai respondia. Ele morreu para nos salvar. Sofreu muito por nós. Não vê? Antes de adormecer eu agradecia. A Sua luta e devoção. A esse Cristo de coração aberto. Minha eterna paixão. À mesa minha mãe rezava. Estávamos probidos de chamar palavrão. De comer carne vermelha. Só peixe em multiplicação. No outro dia eu sentia que caía uma luz luminosa em nosso quintal. Cheguei a desejar ser um Messias. A operar milagres. Ave nossa! O que você quer ser quando crescer? Lembro-me que eu dizia. Um profeta. Até achava que eu era. Porque eu adivinhava o pensamento de todo mundo. Em casa eu jurava que sabia o que cada um guardava. Em segredo. Um medo medonho. Uma falta. Uma tristeza ao fim da tarde. Às seis horas era a hora de nossa alma confessar. Juntos ouvíamos na rádio uma Ave-Maria. Aquele rosário de dor. Aquela reza alta. Fazia meu juízo aliviar. Em morada de pobre o sofrimento é uma moeda. Não se tem dinheiro. Não se tem luxo. Mas a dor que dói é mais graúda. Chega de miséria. Quem conseguir sofrer mais é o mais rico. Aquele que vai mais fundo em sua fé. Por isto aquele drama. Em toda Semana Santa. Pois é. Tudo martirizado. Família de flagelados. A minha. A da vizinha. A do mundo inteiro. Eu aproveitava esses dias de Páscoa para enrolar Jesus em um pano. Eu tinha nove anos. Tentava limpar o Seu sangue. Raspar o gesso. Ao redor do Seu umbigo. Para que Ele ressuscitasse cheio de saúde. Eu pensava. Sim. Tenho o dom de curar o meu amigo. A quem eu tanto amava. Juro. Meu Deus! Seria pecado? Jesus foi o meu primeiro namorado.

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O OÁSIS DE CADA UM

Bethânia está irritada. Contrariada. E com razão.

Lembram-se daquela história do blog de poesia? Em que foi pedido o valor de mais um milhão para que ela estivesse à frente de uma página de poemas, recitando Vinicius, Clarice, Pessoa?

Pois bem: Maria Bethânia acaba de lançar disco novo – este ao lado. Intitulado Oásis de Bethânia.

Em entrevistas recentes, ela diz que apenas foi convidada para participar. A articulação não era dela. Essa coisa de fazerem projetos e você, como amigo, digamos, assinar a anuência, seguir na confiança, etc. Em resumo: vão no seu oásis e roubam de sua terra, pedra, água. Invejam o seu tesouro, tiram uma casquinha, prospectam em cima de sua alma.

Compreendo a Bethânia. Sim, entendo. Acho a cantora uma das nossas maiores vozes, intérpretes latinas. Há muito tempo ela, sim, não se pode negar, divulga em seus shows a literatura. A lista é grande de poetas para quem ela jogou luz. Claro e evidentemente que aquela história do blog é aburda. E esconde bastidores que desconhecemos. Basta ouvir o novo trabalho da baiana. Lá ela dá o recado, pede proteção, reza para afastar os parasitas de seu jardim – gente muito próxima e também, creio, parte da imprensa e do público que, no lombo da artista, cairam matando.

Bom caso para reflexão. Ave nossa! Este outro lado da conversa. Meio, ao que parece, diz ela: você levanta, com muito esforço, a sua morada e chegam forasteiros para farejar de seu vento, de sua fonte criadora. É preciso, de fato, muito foco. E um coração vigilante o tempo todo. Conviver é muito perigoso. Meu Cristo! Meu Pai Xangô! 

Abaixo, leia trechos de Carta de Amor, que está no CD recém-lançado. Música com refrão de Paulo César Pinheiro e um longo texto-desabafo de autoria da própria Bethânia, em que ela solta a língua. Para quem ainda estiver afim de escutar. Salve, salve, Meu Pai Xangô, amém e saravá!

CARTA DE AMOR

Não mexe comigo / Que eu não ando só / Eu não ando só / Que eu não ando só / Eu tenho Zumbi, Besouro, o chefe dos Tupis / Sou Tupinambá, tenho os erês, caboclo Boiadeiro / Mãos de cura, morubixabas, cocares, arco-íris / Zarabatanas, curare, flechas e altares / A velocidade da luz / O escuro da mata escura / O breu, o silêncio, a espera / Eu tenho Jesus, Maria e José / Todos os pajés em minha companhia / O Menino-Deus brinca e dorme nos meus sonhos / O poeta me contou / Não mexe comigo / Que eu não ando só / Eu não ando só / Que eu não ando só […] Medo não me alcança / No deserto me acho / Faço cobra morder o rabo / Escorpião virar pirilampo / Meus pés recebem bálsamos / Unguento suave das mãos de Maria, irmã de Marta e Lázaro / No oásis de Bethânia / Pensou que ando só / Atente ao tempo […] Eu não provo do teu féu / Eu não piso no teu chão / E para onde você for / Não leva meu nome, não […] O que é teu já tá guardado / Não sou eu que vou lhe dar / Não sou eu que vou lhe dar / Não sou eu que vou lhe dar […] Não mexe comigo / Que eu não ando só / Eu não ando só / Que eu não ando só

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PALAVRA DE MENDIGO

Escrever usando a palavra do mendigo. Ouça, procure uma esquina, fique de ouvido ligado no que falam os mendigos. No que murmuram, no que bocejam. Como fabulam. Sua escrita, caramigo, caramiga, tem de dar conta desta fala primitiva. Deste inventário linguístico. Destas articulações paupérrimas. E tão ricas. Explico: a primeira providência tomada por um indigente é montar o seu casulo. O seu casebre de papel e papelão. Monta ele do nada a sua morada. Lá faz habitar seus pertences. Espelho, retrato, piolho. Pulga de cachorro, panelas. Horóscopos velhos. Alguns santos de proteção. E um juízo que grita o tempo todo. Conversa em silêncio. No calabouço. Não importa o trânsito em volta. A ignorância de quem olha. Ora, ora. O mendigo está voltado para dentro. Do seu esquecimento. É isto. Ali, ele deixa crescer as unhas, cria o próprio buraco. Umbiga-se. Ali, ele levanta uma catedral com as próprias falências. E deficiências. Repito, amiga, amigo: abra o olho. Siga, um dia, em qualquer manhã, o caminho de um mendigo. Capture seu vocabulário. Fungue – e expire – o seu vexame. Contamine-se. E não se engane. A literatura não está no sublime. Está aí, na boca do viaduto, no cu da sua rua, pertinho de você. Coitado daquele que não vê.

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