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Archive for maio \31\UTC 2012

PARA MINHA MÃE

Saudade dói porque é o que é. Saudade e nada mais. Pois é. Só ela e mais ninguém. Vem e varre ao redor. Deixa tudo só o pó. E mais nada. Enxergamos os prédios e o quanto são pequenos os prédios. As ruas as ruas. Os dias na sua duração exata. Nem menos nem mais do que isto. A saudade é um buraco negro. Arrasta o sol ao precipício. Enxergamos fundo o mundo. De perto. A saudade abre os nossos olhos. Mesmo na hora de dormir avistamos. O inferno que somos. O fogo fátuo. A saudade é de verdade. Porque arde. É pimenta. A toda hora nos lembra como a vida é sem graça. E vazia. A saudade é um choque de realidade. É a nossa extrema agonia. Saudade é bom que se diga. Não dá poesia. Não inventa. Nada cria. Depois da pessoa amada. A saudade é a nossa melhor companhia.

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NÃO ESCREVA BONITO

Escrever bonito é uma merda. Não queira esse elogio de ninguém. Loa tipo essa: você escreve tão bem. Você nos toca. Ave nossa! Fuja dessa mentira. Dessa falácia! Não procure palavras gloriosas. Maquiagens pesadas. Botox nas frases. Bom é verbo velho. Enrugado. O peso exato de cada parágrafo. Nem mais nem menos. Fique longe, sempre digo, de qualquer sentimento. Releia, agorinha, aquele seu conto. Ponto por ponto. Se, aqui e ali, você parar a leitura para suspirar. Jogue fora o suspiro. Tudo que for adjetivo elevado. Enganoso. Xô, ao lixo! Não presta para a poesia o que é cerimonioso. Solene. Também não invente termos acadêmicos. Gregos pensamentos. Arrodeios na língua. Lembre-se: todo livro nasce falido. Raquítico. Você critica tanto o discurso político. E faz o mesmo na hora de escrever. Usa gravata para parecer ser. E não fica sendo, nem um tiquinho, parecido com você. Esta pobre imagem que avistaremos no espelho. Antes de morrer. Nosso! Faz tempo que eu não falava assim tão bonito. Que merda! Pode crer.

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IRMÃO, PAI E FILHO

Acabei de voltar de Araraquara.

Explico: o SESC de lá me convidou para ser curador do projeto Literal_mentes.

Um minifestival, bimestral, de literatura.

E aí muita coisa bacana já tem rolado.

A edição de ontem foi linda e histórica. Porque dois dos convidados foram Laerte e o Rafael Coutinho – na foto, comigo.

Enquanto eu batia um papo no palco com o pai, o filho desenhava, em traço livre, o que quisesse. E foi lindo ver a figura tomar forma – na foto idem. E foi emocionante a energia da plateia lotada. Com direito, ao final, a show da banda Saco de Ratos, do Mário Bortolotto.

Mas, confesso: o momento mais mágico, para mim, foi passar esse tempo todo com esses dois grandes artistas – no mesmo carro, cruzando o interior de São Paulo. No mesmo hotel. Trocando impressões, piadas, assuntos.

Se eu já admirava e era amigo de longa data da dupla, agora eu me sinto um tipo de irmão. Fazendo parte dessa mesma família – digo: cria da mesma emoção.

Valeu e vamos que vamos e fui e salve, salve e abração.

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ENTRE O TREM E A PLATAFORMA

Hoje o metrô entra em greve. E pensei na querida Lucimar Mutarelli. Ela que faz aniversário exatamente hoje. E que escreve boa parte de sua literatura dentro do trem. Entre uma plataforma e outra, uma ideia. Uma palavra parada na faixa amarela. Ela vai lá e leva. E maravilha!

No sábado agora, a partir das 16 horas, na Livraria da Vila da Lorena, Lucimar lançará seu romance de estreia. Veja a imagem da capa. Sim. O livro foi todo escrito durante viagens que ela fez. Com seus personagens, vagando no vagão. Pressa e solidão.

Ela me convidou para escrever o prefácio da obra. Eu escrevi, muito orgulhoso. De fazer parte desta viagem com ela. Disse eu a uma certa altura: o pensamento da autora está sempre em movimento. Para cá e para. Lucimar é, sobretudo, uma poeta. Que olha, ao redor, essa nossa paisagem vazia. Nosso dia a dia. Sem fim.

Fiquem ligados, atentos. É livro para ler rápido. Lucimar escreve curto. Sem delongas, saravá, amém! Em dia de greve, melhor leitura também não há. Enquanto o trem não vem nos buscar.

Sucesso, querida.

E sorte e mil parabéns e valeu e vamos que vamos e salve, salve, ave nossa, oxalá.

Fui.

Sem ir e té já.

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ZINHO

Filho. Meu filhinho. Médico nem pensar. Não criei você para salvar vidas. Nem curar bicho de pé. Nesta casa você não entra se quiser insistir. Nada de estetoscópio. De bisturi. De cara branca. Apalermada. Não foi essa a educação que lhe dei. Meu Deus. Onde errei? Não coloquei você no mundo. Nem o seu irmão. A sua irmã. Para ser engenheiro. Porra de advogado. Muito menos psicólogo. No divã. Juro que dou uma de louca. De tantã. No dia em que a Biologia. Ou a Geografia. Ou a Matemática. Fizer a sua cabeça. Pelada. Igual ao filho da Dona Creuza. Coitado. Passou no vestibular. Diz que vai ser publicitário. Fazer aquelas propagandas da TV. Não é de lascar? Não é de foder? Olhe bem para a sua cara. Olhe lá. Aonde você quer chegar? Aonde? Em qual horizonte? O sacríficio que a gente fez. Para lhe dar estudo. O duro que foi. O duro que é. Para uma mãe. Assim. Acompanhar o filho jogar. O futuro no lixo. Meu querido. Excomungado. Seu danado. Ouça. Numa boa. É a última vez que lhe aviso. Fiz até promessa. De você ser. Igualzinho. Zinho. Ao seu bisavô. Ao seu avô. Ao seu pai. Meu amor. Pense bem o que você vai fazer da sua vida. Hein? Seu merda. Não sou eu quem está pedindo. É o mundo que necessita. Cada vez mais. De poeta. Poeta. Poeta.

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NOSSA COZZA

Acompanho, faz muito tempo, a luta da querida amiga e cantora Fabiana Cozza.

Sempre que ela lança um disco novo, o empenho que é juntar as forças, os amigos, colocar seu trabalho à prova, um repertório sem concessão, para tocar.

Eta danado!

Por isso esse meu registro, emocionado: o mais recente trabalho de Fabiana (veja imagem) acaba de ser indicado em duas categorias no Prêmio da Música Brasileira 2012.

A saber: Melhor Cantora de Samba e Melhor Álbum de Samba.

O resultado sai em junho. Mas, por mim, ela já ganha.

Nós, com ela, também sempre ganhamos.

Viva e parabéns, amiga.

E vamos que vamos.

Fui. Sem ir.

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ESCRITOR NÃO SENTE NADA

É, meu amigo, minha amiga, escreva aí: escritor não sente nada, quem sente é o leitor. Por favor, eu imploro: deixe o sentimento de lado na hora de escrever. Evite dizer que determinado personagem “sentiu um vazio no peito”. Claro que foi o personagem quem sentiu esse vazio. Não fui eu. Tudo, na escrita, já vem carregado de sentimento. É o ódio que queremos colocar para fora. O amor, a paixão. O medo, o tesão. Escrever já faz parte desse nosso testamento falido. Entendeu? Se não, deixa eu repetir: evite, sempre que puder, o verbo “sentir”. Exemplos: “sentiu-se triste”, “sentiu seu coração bater”. O leitor sente quando o amor surge. Nas páginas, na alma, na vida, na ficção. Não precisa você se derramar em explicação. Ficar o tempo todo falando de emoção, lágrimas, calafrios. Não ilustre, em demasia, o que o silêncio, com certeza, já conseguirá dizer. Se o sentimento do escritor é legítimo, se a dor de seus personagens é mesmo verdadeira, o leitor irá perceber. Deu para sentir, meu amor? Aliás, deu para entender?

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