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Archive for julho \26\UTC 2012

UM BOLO PARA CORTÁZAR

“Para mim o sucesso não dá prazer. Não posso ir a uma praia na Europa; em cinco minutos aparece um fotógrafo. Tenho uma aparência física que não posso disfarçar. Se eu fosse baixinho, poderia tirar a barba e colocar óculos escuros, mas, com a minha altura, meus braços longos e tudo isso, eles me descobrem de longe. Por outro lado, há coisas muito bonitas: eu estava em Barcelona no mês passado, passeando pelo bairro gótico certa noite, e havia uma moça americana, bem bonita, tocando violão muito bem e cantando. Ela estava no chão cantando para fazer algum dinheiro. Parecia um pouco a Joan Baez, uma voz muito pura, límpida. Havia um grupo de jovens de Barcelona escutando. Parei para ouvi-la, mas fiquei na sombra. A certa altura, um daqueles rapazes, devia ter uns vinte anos, era muito jovem, muito bonito, chegou perto de mim. Tinha um bolo na mão. Ele disse: ‘Julio, pegue um pedaço’. Então eu peguei um pedaço e comi, e disse a ele: ‘Muito obrigado por ter vindo me dar esse pedaço de bolo’. Ele respondeu: ‘Mas, escute, estou lhe dando tão pouco em comparação com o que você me deu’. E eu disse: ‘Não diga isso, não diga isso’, nos abraçamos e ele foi embora. Bem, coisas assim, essa é a melhor recompensa pelo meu trabalho como escritor. Que um rapaz ou uma moça venha falar comigo e me oferecer um pedaço de bolo é maravilhoso. Vale o trabalho de ter escrito.”

[ Julio Cortázar – quase disfarçado na foto acima – em depoimento a Jason Weiss, no ano de 1984, pouco antes da morte do escritor argentino. Esse trecho eu colhi do segundo volume do livro “As Entrevistas da Paris Review”, traduzido por George Schlesinger e publicado pela Companhia das Letras ]

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POEMINHA PARA O DIA DO ESCRITOR

Hoje,
no Dia do Escritor,
eu mato o primeiro
que vier me perguntar

E aí,
como eu faço para editar?

Você me ajuda?

Eu mato o filho da puta
que deixar
a sua própria literatura
para um outro tomar
conta

Mãos à obra,
porra!

Eu juro que mato
aquela pessoa
que vier querer saber

Qual assessoria de imprensa
eu devo contratar
para aparecer?

Para alguém poder falar
de minha poesia?

Degolo,
trucido

Mando para o inferno,
para o fim da linha,
o carinha que quer ser
autor
só de fim de semana

Esperando a sorte
chegar

O júri escolher o seu conto
para aquela revista britânica

Ou, já com o livro na livraria,
agora viver de botar banca

Sem nada para dizer

Aquele que não quer ler
Camus, Camões, Vaz, Quintana

Aquele que não vê
a rua à sua volta

O bêbado na lama,
a vida na sarjeta

Aquele que ignora
a dor

Alheia

Do poeta verdadeiro

Executarei,
sem pena

Este tipo de gente
de alma pequena

E sem amor

Hoje,
no Dia do Escritor,
brindemos à morte,
entre nós, 
de menos um

Impostor

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PROIBIDO ESTACIONAR

Guilherme Zarvos nunca estaciona. Disso eu já sabia. Nunca para quieto.

Zarvos (em foto antiga, ao lado), para quem não sabe, nasceu em São Paulo mas vive desde criança no Rio de Janeiro.

Um dos mais originais poetas e “agitados” culturais que eu conheço. Além dos livros, por exemplo, foi ele quem criou, ao lado do Chacal, o lendário CEP 20.000.

Zarvos é mais de 20.000. Impressionante o fôlego do cabra. E a sua antena virada. Toda vez que o vejo, ele me fala de algum poeta novo, de algum jovem no pedaço.

Apresenta-me o mundo, girando, em rotação de colisão.

E sempre é assim: generoso, queridão. Raivosamente amoroso.

Neste final de semana, estive com ele.

Ofereceu-me um jantar em sua casa – preparado pelo seu amigo e chef Luís.

Fomos lá eu, Rod Britto (um dos escritores porretas que, faz tempo, ele me apresentou), Raphael Vidal e o irmão Paulo Scott.

E eis que nos deparamos com mais uma das suas histórias hilárias. Para guardar no coração da memória. Explico: veja a foto abaixo. É a de um carro que ocupa a garagem do Zarvos.

Conto: Zarvos não dirige. Não tem habilitação. Nem quer. Usava a garagem de seu apartamento, próprio, para colocar livros, do chão ao teto.

O condomínio fez reunião e resolveu avisá-lo: a vaga era só para carro, ora, exclusivamente para automóvel. Daí, Zarvos comprou um carro sem rodas. E o entulhou de livros. O condomínio se reuniu mais uma vez e deu a ele novo recado: o carro tem de andar, não pode ficar parado. E agora? Eta danado!

Pois bem: Zarvos tratou de colocar, aí neste carro da foto, uns pneus de bicicleta. E, de quando em quando, tira ele mesmo “a máquina” um tiquinho do lugar e sai pedalando para cá e para lá.

Sem contar que esse carro era o mesmo que já esteve repleto de livros até o teto. Na foto de sábado passado (clicada pelo Scott) só não há livros porque o Zarvos já está de mudança marcada.

Eternamente de mudança o cabra. É esta a sua vida. E a sua guerra. Tenho orgulho de ser amigo e leitor e aprendiz deste grande poeta.

Ave nossa! Vamos que vamos que nessa.

Fui.

Para o futuro que não nos espera.

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O CHEIRO NOS LIVROS

Nunca me cheirou bem. Digo: o cheiro na literatura. Quando aparece. Sempre “emana” um perfume. “Exala” no ar. Um lugar-comum “toma conta do ambiente”. Nada a ver com Cheiro do Ralo. Romance do Lourenço Mutarelli. Legítimo. Por que será? Faz tempo que vivo a me perguntar. Podem reparar: o cara está lá escrevendo um parágrafo. Depois de algumas linhas, põe o nariz para funcionar. E eis que: aparece fragrância. Jasmim. Tudo que é essência de jardim. Um exagero! Talvez seja pelo fato de nenhum texto “vir de fábrica” impregnado de lavanda, suor, cigarro. Aí o autor acha que é preciso dizer. Para o leitor sentir. E haja odor, odor, odor. Digam para mim: tem palavra mais asséptica do que “odor”? Que merda! Opa! Mas aí a coisa já começou a feder. Assunto, assim, para uma próxima conversa. Abraços e até segunda. E valeu e um cheiro – na bunda. Fui.

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UM VELHO ESCRITOR

Você não entrou na Granta? Vieram me perguntar. Agradecido fiquei com o interlocutor. Achar, assim, que eu não passei dos 40 anos. Que eu tenho ainda menos de 45. Maravilha e lindo, lindo!

Sobre a Granta, é bom que se diga, já estou velho. De muleta. Confesso que, se eu tivesse idade, faria como a Veronica Stigger, juro. Não entraria em disputa (disse ela à Folha de S. Paulo de hoje). No meu caso, eu faço literatura exatamente por isto. Porque não estou em processo seletivo, à cata de emprego.

Para quem não está por dentro do assunto, eu resumo: a polêmica da vez são os vinte eleitos pela revista britânica Granta como os “melhores jovens escritores brasileiros”.  Inscreveram-se 247 mancebos e mancebas. A revista rodará o mundo. Fico contente pelos amigos que lá estão. Merecidamente.

Acho que os escolhidos têm mesmo é que comemorar. E mãos à obra e saravá! Só não posso aceitar que este seja o único recorte possível. Eu que vivo viajando pelo Brasil e encontrando gente muito boa, longe do convencional e vigorosamente produzindo. Nas periferias e em tudo que é esquina.

Se há um receio é este: a preguiça de curadores e professores e jornalistas e editores daqui e de outros países. Pegarem (e pregarem) a revista como verdade absoluta. E ao pensarem nos jovens autores do Brasil não pensarem em mais ninguém além.

Fodeu! E fodeu ainda mais se os próprios jovens escritores (a grande maioria que ficou de fora) aceitarem o livro como veredicto definitivo. Ave nossa!

Mas o problema não é meu e nem da Granta. A revista fez o que julgou certo. O caso é você aí, meu caro, fazer suas próprias antologias e movimentos. Escrever, escrever, escrever. E não parar quieto.

Aliás, eu e o Vanderley Mendonça, da minúscula Edith, fomos procurados para criar uma alternativa à seleção da Granta. Não faremos isto.

Repito: mesmo que não pareça, estou velho. E ser velho cansa. Já ando aprontando um bocado faz tempo. Meu tempo agora é outro. Na estrada. Correndo à cata de meus poucos (e verdadeiros) leitores. Assim, na raça. Eis o caminho. Para aquela, a da Granta.

Ou para qualquer que seja a cara da moçada.

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DANDO O QUE FALAR

Hoje é um dia muito especial. Sexta-feira, 13 de agosto. Faz 21 anos que eu cheguei em São Paulo, saído de Pernambuco. Era um sábado do ano de 1991. E hoje idem faz um ano que eu lancei em São Paulo, no Sarau da Cooperifa, o livro de contos Amar É Crime pela Edith. E também faz um ano hoje que eu soltei o verbo no Programa do Jô. Para assistir ao dia em que “dei o que falar” na Rede Globo, acesse aí embaixo e vamos que vamos, direto do Recife, e aquelabraço.

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O DIA EM QUE MEU PAI CHOROU

No final da vida, meu pai chorava por qualquer coisa: quando vinham gatos fantasmas visitá-lo. Sim. Bichanos de outro mundo. Ele chorava. Pelos cantos. Quando ouvia passarinhos. Quando batia uma saudade de Luiz Gonzaga.

Na chegada e saída dos netos. Em silêncio débil ele chorava. Ao terminar o banho. Cheio de loção. Ao abraçar minha mãe à cabeceira. À ponta da mesa. Ele tremia e chorava. Meu pai virou um velho chorão. No final da vida. Desmanchava-se.

Porém, me lembro bem. A primeira vez em que vi meu pai chorar. Em que ele, na verdade, se engasgou. Ficou um vazio na voz. Porque meu pai foi um senhor duro. Embora bem-humorado. Um senhor de outro tempo. Sem abraços demorados. Nem derramamentos.

Isto faz 21 anos hoje. O dia em que meu pai chorou. Por dentro. A hora em que peguei as malas. Soquei no automóvel. Dei a meia-volta para beijar os parentes. Todos ali, reunidos em minha despedida. Eu de partida decisiva para São Paulo.

Caminhei em sua direção. Para agradecer por tudo o que ele me deu. Tudo o que eu estava levando comigo. Repito: àquela manhã de uma quinta-feira, dia 11 de julho do ano de 91.

Meu pai, ali, diante de mim, não conseguiu dizer uma palavra. Apertou-me a mão. Olhou nos meus olhos. Feito um amigo que nos olha. Com amor. Meu pai me amava. Todo em sua dor. Silenciosa.

E me respeitava, profundamente. O filho caçula que ganhava o mundo. A quem ao mundo ele entregava. Para sempre.

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