Feeds:
Posts
Comentários

Archive for março \22\UTC 2013

BROXA

Broxa.

Para eu poder te contar que o nosso filho abriu hoje o primeiro sorriso reconhece os bichos do quarto já brinca de tocar no nariz do palhaço morde as dobras do pé tão lindo que ele é.

Broxa.

Para eu poder te contar que o nosso filho já está dando os primeiros passos derrubando os enfeites da sala já senta e até já fala umas palavras tão doces de ouvir pá lá ná ná né né ni ni.

Broxa.

Para eu poder te contar que o nosso filho ontem foi à escola e nem chorou quando a professora abriu a porta e ele viu os outros meninos chamando para ele brincar cores e mais cores para pintar.

Broxa.

Para eu poder te contar que o nosso filho danou-se a me perguntar como veio ao mundo ele quer saber tudo e eu tive que contar o melhor é a gente não enfeitar e falar só a verdade não é.

Broxa.

Para eu poder te contar que o nosso filho já tem pêlo no rosto fala grosso e gosta muito de mulher me falou que está de namoro com a filha da vizinha sabe aquela menina lá de cima é ela.

Broxa.

Para eu poder te contar que o nosso filho arranjou um emprego de motoqueiro faz entrega para a prefeitura me disse que a correria anda braba e o dinheiro curto por isso abandonou os estudos ele jura.

Broxa.

Para eu poder te contar que estou grávida quem diria e a namorada do nosso filho também pegou uma barriga nessa idade não sei o que fazer por que você não olha mais na minha cara arranjou outra foi hein homem me fala.

Anúncios

Read Full Post »

SUA POESIA É SUA

Só existe um livro no mundo. Dizem. Os outros livros vêm sempre em segundo. São cópias desse primeiro livro. Tudo está, na verdade, sendo eternamente reescrito. Ave nossa! Certo. Eu entendo. Mas penso. A poesia, por exemplo, de Augusto dos Anjos é dele. Unicamente. Sim. Mesmo filho e herdeiro de leituras parnasianas, simbolistas. Somente ele, ora, lançou o olhar para uma dicção específica. Digo: focou ele seu espírito em uma língua paralítica. Maldita. Inaugurou, no Brasil, um repertório original. Raivosamente lírico. Meu Cristo! Como não dizer, a saber, que aquilo que escreveu Guimarães Rosa foi ele mesmo quem escreveu? E para valer? Foi a fala dele que se abasteceu do verbo do povo, do gesto do jagunço, do léxico dos Sertões. Claro que o autor mineiro bebeu na fonte de Euclides da Cunha. E na de gente mais antiga nesse mundo. Há testemunhas. Mas Rosa é dono do que fez. Ora, sem dúvida. Mergulhou profundo em várias culturas que ele, só ele, pôde traduzir. E fazer uso sem limite, enfim. E mais não digo. Mas pergunto. Meu amigo e minha amiga: e sua poesia como anda? Diz-me, ao pé do ouvido. Sua poesia é sua, de verdade? Você está consciente dos voos que dá na página? Do espaço que ocupa com cada palavra? Dos verbos que escolhe? Tem lido bastante, meu jovem, minha jovem? Quais poetas costuma visitar? Já roubou quem hoje? Se roubou, o que pôs, então, no lugar? Reexplico: tudo é seu quando você sabe o que está fazendo. Quando há intensidade na sua entrega. Quando você carrega, feito formiga, um pouco de cada coisa por aí espalhada. De cada obra que leva para casa, você bem sabe o nome. É capaz de reconhecer o sinal. De que maneira, visceral, a poesia do outro tocou no seu peito. Não tem jeito. Somos feitos do que foi feito. E agradecemos, quando escrevemos, a quem nos ajudou nessa busca. Infinita. Por uma voz só nossa. Um jeito só nosso. E de mais ninguém. De estar na vida. De sentir quando a alma de nossa arte segue. Além.

Em tempo: aproveito para relembrar que continua no ar o Concurso Edith Só Para Poetas. Se você tem um original em casa, mande para gente. Para saber mais sobre isto, acesse aqui. E boa sorte.

Read Full Post »

POEMINHA DE ANIVERSÁRIO

AniversárioMF

No seu aniversário
pense no presente.

Não no passado.

Amanhã não há.

Nas rugas do corpo
é que o futuro
vem morar.

Tudo é velho desde já
e desde sempre.

Nem adianta chorar
pelo que não foi feito.

Este peso no peito
não é sentimento.

Nada ficou perdido
no tempo.

O que veio
veio para ficar.

Deixe estar.

A idade está dentro
e não fora.

Aqui e agora
é hora de festejar.

Até a morte
virá para a festa.

Dará parabéns
para você.

E ao seu lado
mais uma vez
será ela.

Quem apagará
a vela.

[ Encontrei a foto acima,
eu festejando aniversário de 19 anos
ao lado da filha de um amigo.
Faz tempo isto. Eta danado! ]

Read Full Post »

DIRETO DE CUBA

CartãoCuba

Dia 24 de janeiro deste ano. Entrei numa pequena agência dos correios lá na Cidade de Cienfuegos, em Cuba. Pedi um cartão e escrevi uma mensagem para mim mesmo. Sim. Enviei um cartão de lá mandando, para o meu endereço, um abraço grato e uma reverência bem-vinda ao Meu Pai Xangô – imagem acima. Eu mereço. Fiz isso não para testar os serviços postais de Cuba. Mas porque eu gostaria de guardar, comigo, algum carimbo comunista. Alguma marca da pátria do meu ídolo Bola de Nieve. Uma recordação de uma cidade tão romanticamente parada no tempo como é Cienfuegos. Lembrou-me o interior de Pernambuco. Os jovens à beira da ponte, conversando. Nenhum celular à mão. As bicicletas estacionadas. O belo final de tarde descendo suave. E antigo. De alguma forma, tudo isto, agora, chegou documentado à minha porta. Hoje, dia 18 de março. Para selar na memória. E logo às vésperas de meu aniversário – que acontecerá nesta quarta. Eta danado! Surreal. Um cartão postal, direto de Cuba, vindo de mim para mim. Ao que parece, desejando felicidades e agradecendo pelos meus 46 anos de idade. Assim seja. Saravá, amém e salve, salve!

Read Full Post »

PEQUENO GRANDE POETA

Amarildo Anzolin tem quase dois metros. É curitibano, mora aqui em São Paulo. É um dos meus poetas preferidos. E faz tempo que eu não lia um livro dele. E eis que acabou de sair um publicado pela Musa Rara e Terracota. Abaixo, selecionei uns pequenos versos. Grandes, grandes! Coirmãos de versos rápidos que igualmente admiro, a exemplo dos escritos por Francisco Alvim e Nicolas Behr. Título da obra: Evite Permanecer Nesta Área. Aprendo e apreendo muito com Anzolin, sempre, ao ver a poesia em outros cantos, ares, áreas, recantos, ciscando em outras frentes de batalha. Maravilha plena! Parabéns, cabra. Fui, sem ir. E té.

JOHN DOE
Corpo sem pé nem mão levado pelo mar,
encontrado 70 km depois, vida afora.

EGO
O ego vai dentro ou fora?

FUNERAL DELIVERY
Após me deitarem,
favor encher o caixão com cerveja.


Minha vó foi meu melhor amigo de infância.

PAI
Quando eu morrer me enterrem
dentro do coração de meu pai.

Read Full Post »

MEU CASAMENTO GAY

Não preciso dessa igreja para casar. Desse altar de ignorância não preciso. Digo isso a Murilo, meu marido. Meu bem. Disseram que o novo Papa, o Francisco, é contra o casamento gay. Eu também. Digo: contra esse tipo de casamento eu sou. Dentro dessa doutrina retrógada não estou. Tô fora. Não é o Papa quem vai afirmar que a nossa união é legítima. Pobre deste Francisco que não crê na nossa palavra salvadora. Murilo, meu anjo. Eu me lembro. Do dia em que a gente se encontrou. No mundo. Aconteceu um milagre, de repente. Àquele momento eu fui feliz para todo o sempre. Eu já sabia. Desde aquele dia em que fomos escolhidos. Um para o outro. O futuro que construímos a partir dali. Meu tesouro! Não é o Papa e nem ninguém que vai destruir. Evangélicos maquiavélicos também não conseguirão pôr abaixo a fortaleza deste nosso sentimento. Meu querido Murilo. É isto o que estou te dizendo. Não liga. Não fica chateado. Não espera da igreja a bênção que, todo dia, eu te dou. Ao teu lado, até que a morte nos separe, meu amor.

Read Full Post »

LAMPIÃO E O PAPA

E Lampião não era um assassino? Perguntou-me um senhor, muito branco, alto e afiado, lá da platéia. Foi no domingo passado em que eu participava de um encontro, pela manhã, ao ar livre, no Espaço de Leitura do Parque Água Branca. Isso porque, como de costume, eu conto que eu sou pernambucano, que eu adoro Luiz Gonzaga, que a música de Gonzagão deu ritmo e pulsação ao que eu escrevo. Sempre que posso, tiro, sim, meu chapéu ao Rei do Baião. Por que o Nordeste idolatra só ladrão, Lampião e Padre Cícero? O senhor continuou a perguntar, com os olhos bem azuis, sem medo. Comecei a responder, brincando, fazendo uma cara de susto, sei lá, uma cara de Corisco, de Dadá. Foi quando Malaquias, um morador de rua, cearense, pediu para ele mesmo responder à pergunta. Ele que, desde o começo do bate-papo (mediado bem-humoradamente por Giba, contador de histórias), participava ativamente, sempre risonho, cantarolando comigo a poesia de Gonzaga, de Jackson do Pandeiro, com saudades idem de sua terra. Eu disse: claro, Malaquias, venha cá, me ajude nessa, por favor. Malaquias pegou o microfone e deu um show. Falou da infância de Lampião, falou que também, por essas outras bandas, idolatramos assassinos. A igreja, ela, também matou muita gente. Lampião, pelo menos, protegia os pobres. E por aí seguiu o embate. O senhor, da platéia, em arena, também retrucava. E eu e Giba íamos conduzindo, numa boa, a disputa de classes. Depois, ao final do encontro, sozinhos, à parte, a conversa entre mim e Malaquias continuou. Ele me contou um pouco de sua vida, por que foi parar nas ruas, etc. Ofereceu-me uma caninha, “amiga”, que carregava em sua mochila. E ainda opinou, sábio, sobre a renúncia do Papa. Analisou: ele não renunciou, ele foi renunciado. E explicou que o Papa não tinha carisma, era uma mosca-morta. O Bento XVI teve o seu momento de glória agora, na renúncia. Faz tempo que ele já estava entregue, falido, cansado. Teorizava o grande Malaquias. E repetia: o povo tem adoração por tanta gente que não presta. E gente muito pior do que Lampião, ora essa.

Read Full Post »

Older Posts »

%d blogueiros gostam disto: