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Archive for janeiro \29\UTC 2014

UM PERNAMBUCANO EM BERLIM

FotoEdMF

Edney é todo sorriso. Inesquecível ele nos levando, a mim e ao amigo Ferréz, até o hotel em que ficaríamos hospedados. Edney nos convidou para um bate-papo em sua livraria que fica em Berlim. Uma livraria chamada “A Livraria”. Eta danado! Foi em outubro do ano passado, durante a Feira do Livro de Frankfurt. Seguimos de trem ao encontro de Edney. Edney Pereira é o nome dele. Edney é pernambucano e a sua história daria um livro. Os percalços desde quando saiu do Recife e foi ele levantar, em Berlim, ao lado mulher Catia Russo, uma livraria com obras, a grande maioria, de países lusófonos. Com direito ainda a uma mercearia que vende doces típicos brasileiros (mais pernambucanos) e cachaças e artesanatos e vamos que vamos. Na foto acima, enviada pela querida amiga Fernanda Cury, estamos eu, Ferréz e alguns dos amigos queridos, brasileiros e alemães, que foram prestigiar o nosso bate-papo. Edney é o cabra de camisa amarela. Para saber mais sobre “A Livraria”, clique aqui em cima. E vamos que vamos e bora embora e viva, Edney, e aquelabraço.

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APRENDENDO COM CORTÁZAR

Clases

O livro que mais li intensa e hipnoticamente em minhas recentes férias foi o livro acima, “Clases de Literatura”, de Julio Cortázar, publicado pela Alfaguara e ainda sem edição no Brasil. A obra reúne, em uma minuciosa transcrição, aulas dadas pelo autor argentino na Universidade da Califórnia, em Berkeley, nos Estados Unidos, no ano de 1980. Uma delícia “ouvir” Cortázar falar sobre humor, erotismo, pontuação, estilo, bloqueio criativo e sobre a feitura de seus romances e contos e fábulas e tudo o mais. E maravilha idem perceber como ele era atencioso e respondia, com prazer e sem pomposidades, às perguntas dos alunos. Ave nossa! Cada vez mais sigo apaixonado por esse grande escritor, enfim, assado. E adorei, por curiosidade, encontrar, em uma das páginas, ele citando dois saudosos e queridos pernambucanos, Dom Hélder Câmara e Osman Lins. Recomendo a leitura, correndo – por enquanto, só em espanhol. E vamos que vamos.

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PALAVRA REACESA

Jose

Eu não sabia que conhecia faz o tempo o poeta José Chagas. Já tinha ouvido, quando adolescente, seus versos cantados pelo Quinteto Violado. Falo do poema “Palavra Acesa”, escrito em 1965. Exemplo clássico de como burlar a censura: “Pra ti amada” se confunde com “Pátria amada” (leia abaixo). E o recado foi dado. Lindo, lindo! Redescobri e relembrei da canção porque acaba de sair um tributo ao poeta paraibano (radicado em São Luís do Maranhão) de 88 anos. Um CD reunindo seus poemas musicados e, nesse volume (imagem acima), interpretados, entre outros, por Ednardo, Márcia Castro, Chico César, Silvério Pessoa, Fernando Filizola, Fagner, Celso Borges e Zeca Baleiro – esses dois últimos, produtores do trabalho (lançado pela Saravá Discos). Porreta e oportuno. E vamos que vamos e aquelabraço. Em tempo: e acabei de saber que, pela primeira vez, a musa da contracultura, a lendária Joan Baez, virá fazer show no Brasil em março. Ela que foi proibida, pela ditadura militar, nos anos 80, de cantar em nossas terras. Imperdível! Salve, salve, amém e saravá! E bora embora nessa.

PALAVRA ACESA

Se o que nos consome fosse apenas fome
Cantaria o pão
Como o que sugere a fome
Para quem come
Como o que sugere a fala
Para quem cala
Como o que sugere a tinta
Para quem pinta
Como o que sugere a cama
Para quem ama

Palavra quando acesa
Não queima em vão
Deixa uma beleza posta em seu carvão
E se não lhe atinge como uma espada
Peço não me condene oh minha amada
Pois as palavras foram pra ti amada
Pra ti amada

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TUA MÚSICA DE AMOR

faz uma música para mim
estou cansada de cantar
eu sozinha
em teu ouvido

faz uma canção só minha
para eu gravar na memória
uma letra assim sonora
sincera simplória

algo como
eu preciso deste teu carinho
até o fim oh!
eu preciso deste teu carinho

chegou a tua hora
escreve aí vai um refrão
e mais um refrão que toque
brega e fundo no meu coração

dê cordas no meu peito
afine todos os instrumentos
salve de morrer sem querer
o meu violão

uma música para a gente dançar
coladinho meu bem até amanhecer
um bolero que vai e vem
sei que ainda dará tempo

faz por favor correndo
para que o nosso amor não acabe
sem eu nunca ouvir a tua voz
partir neste silêncio

[ Eu acordei hoje cantarolando
essa letra doida, acima, feita em sonho.
Perdi a música. Ainda bem. Restou a letra.
Ou a ideia da letra. Qual compositor
ou compositora agora se habilita?
Em dividir essa nossa primeira parceria? ]

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TEMPO DE CAÇA

KauMF-2

Pense, leitora, amigo leitor. Na alegria de um menino de 16 anos. No colorido que há no olhar. Olhe. Lembre-se de quando você era assim. Serelepe. Cheio e cheia de vigor. Quando acreditava no mundo. Ia fundo aonde fosse. Perceba de lado. No seu vizinho, no seu irmão. Nos moleques no shopping. No rolezinho pelas praças. Nas várzeas. Cada um, a seu modo. Inocente. Chutando o país para frente. Ao sol, ao gol.

Pense, hoje. Na idade que o seu filho adolescente porventura tenha. Nas espinhas da revolução. Em cada recente manifestação. Que tomou conta do Brasil. Nas caras pintadas. No sol raiando. Triunfante. Nos arco-íris de gente. Pequena. Miúda. Colegial. Garotos e garotas que fizeram todo mundo cair na real. Pense.

Agora pense em Kaique Augusto Batista dos Santos.

Seu corpo morto foi encontrado embaixo de um viaduto de São Paulo. Na madrugada de sábado passado. Ele tinha apenas 16 anos. Pense no que é encontrar seu filho. Largado, desfigurado. Os dentes quebrados. Sem sorriso. Pense na falta que a alegria nos faz. Que essa alegria nos fará. Reflita sobre isto.

Ponha-se, mesmo que você seja mais velho, ou velha, ocupe agora o lugar desta matéria. Morta. Até quando o nosso coração suportará abrir o jornal? Olhar pela janela e encontrar? Este futuro? É prematuro dizer que foi assassinato. A polícia avisa que ainda está apurando o caso. Grupos se organizaram para protestar. Contra a homofobia. Está reaberta a temporada de caça aos pretos, aos jovens da periferia, a todos os veados no ano que mal se inicia. Na última vez em que foi visto, Kaique estava saindo de uma festa gay.

Divirta-se. Puxe pela lembrança, agora, amigo leitor, leitora. Traga de volta, à tona, as suas primeiras aventuras amorosas. Recorda-se? O segredo do amor, as chaves. Aquele rebuliço nos hormônios do peito. O desejo. As descobertas dos sentidos. Averigue, no presente, no passado. O quanto é divertido viver. Promissor crescer. As viagens que você pensava em fazer. Os filhos que você poria no mundo. O dinheiro do próprio suor. Seu primeiro emprego. Pense. Quantos livros, quantos filmes. Quantos carnavais esperados. Planejados. Nos pioneiros porres de vodka, pense. No tempo do iê-iê-iê, do rock, do funk. Nos brilhos da noite. No amanhecer. Você e a sua turma, juntos, vendo o sol nascer. Pense, não pare de pensar. Não pare. A vida é esse movimento. É feita desta asa que nos move. Foi o céu mais lindo o céu daquele nosso tempo. Lembre-se. Da paisagem que você deixou perdida. Na memória.

Pare, agora, por favor. E pense de novo em Kaique Augusto Batista dos Santos.

Morto, com marcas profundas pelo corpo. Franzino. Completamente diferente da imagem saudável de menino. E tão rica de destino. Eu, de minha parte, desde que soube da morte dele, é só o que eu tenho feito: pensado nele. Toda vez em que morre um gay é esse silêncio. De pesar e sofrimento. O que me acontece. Esse tédio. Esse medo. Essa angústia. Esse desmantelo. Eu grito por justiça quando penso. Quando escrevo. Chamo à responsabilidade as autoridades. Urgentemente. Volto a me encher de garras. Minha juventude sempre renasce em meus textos.

Kaique, querido, meu filho, meu amor, meu amigo, companheiro. Nunca nos vimos. Nem sei quem você foi. Mas eu te conheço, íntimo. À margem. Brasileiro igual a mim. Eu já tive a sua idade. No Recife que até hoje me invade. Vivi minha adolescência por lá. Pelas pontes da minha cidade. Passeei. Numa época, ave, em que não havia cabeças raspadas, desreguladas, gente que hoje marca, via Facebook, encontros para nos matar. Hoje mesmo, neste domingo, parece que haverá skinheads no Parque do Ibirapuera. Organizados em grupos, prontos para trucidar o primeiro que passar. Veados como eu. Nordestinos como eu. Pense. Não deixe de pensar. É duro imaginar. Tamanha covardia. Repito. Pense. Reflita, por um instante, é o que peço.

Largue, leitor, leitora, este jornal no sofá, no colo, e olhe aéreo, e olhe, aérea, para fora de sua janela. A nossa pátria lá fora merece o nosso amor. Kaique era todo amor. Eu tenho a certeza. Nos dias em que viveu ele sabia. Que a vida pulsava. Mesmo que tudo seja contra a gente. A vida é a favor. Sempre a favor. Quantos anos você tem hoje? Já pensou? Voltemos.

Não faz tanto tempo que chegamos ao mundo. E ele já girava. E ele nunca para. É preciso valer a pena cada minuto de nossa permanência por aqui. Pense. Quando adolescente, a febre que nos dá. O olho para o horizonte. Aonde nos levou aquela ponte de esperança no olhar? Eu não perco a esperança. Kaique, saiba. Eu não tenho o direito de perder a esperança. Não temos o direito de perder a esperança. Apesar de tudo, é ela que nos dá fôlego para viver. Vindo de longe, desde os primeiros anos de nossas vidas, será esse tipo de amor que nos guiará. Essa a luz que nos acompanhará. Sem nunca se apagar. Até morrer.

[ Texto meu publicado no jornal
O Estado de S. Paulo de hoje,
domingo. Espalhe. Essa minha.
E nossa indignação ]

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POEMINHA DO ROLÊ

sem violência
numa boa

chega chegando

combina com a turma
o grande encontro

pisa bem longe
da loja de calçados

no magazine de roupas
dá de ombro

os produtos importados
vê se ignora

se houver carro à venda
ou moto à mostra

não dá bola

se liga
meu rapaz

nada de gravata
celular e computador

isso deixa para
os animais

você não é nenhum
playboy

você é muito melhor
do que eles

pode apostar

mais poderoso

você tem bom gosto
e educação

tira o livro
debaixo do braço

senta e lê

unidos todos
no mesmo rolê

antes de a polícia
ignorante chegar

ali

na praça
de alimentação

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O LUGAR DO ESCRITOR

Aqui, abaixo, eu, isolado, ainda em tempo de férias, recompondo as energias. Eta danado! Viva, salve, salve e aquelabraço.

Retiro

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