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Archive for junho \26\UTC 2014

A ARTE DO DIRETOR

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Exceto uma ou outra peça, sempre vejo os trabalhos de Mário Bortolotto. Como ator, autor. E até, recentemente, interpretando o repertório de Roberto, o Carlos embriagado. O maior barato. Eta danado! E gosto de Mário idem como diretor. No que ele tem de mais generoso. Encenador quando orquestrador. Um comandante de navio. Aquele que dá bússola ao solo marinho. Chão ao submarino. Explico: Bortolotto nem aparece quando conduz uma peça. O mais importante, ora, é a peça. O texto que ele precisa levantar. Fazer saltar aos olhos da plateia aquilo que há de humanidade. Em cada potente diálogo, em cada passagem. É ele quem está vigilante à linguagem. Fiel às dores dos personagens. E como é precisa a sua navegação, certeira. É fácil de ver cada uma de sua demarcação. Sem ser, assim, calculista e fria. A trilha sonora acentuando a ação. É antológica, por exemplo, a sua antiga adaptação para “O Natimorto”, livro de Lourenço Mutarelli. Inesquecível idem tanto coração que ele já pôs de pé no palco. Para bater. Gente que ele instigou a ser de verdade. O teatro não foi feito para covardes. Bortolotto engrandece as pessoas. Porra! O querido e saudoso Picanha (o ator Paulo de Tharso) que não nos deixe, lá de cima, mentir. Nem falar sozinho. É só conferir. Como impressiona, ave nossa, testemunhar o desenhista Carcarah corporificando Killer Joe, o matador de aluguel. Agora, em sua mais recente peça em cartaz (foto acima). A saber: Killer Joe. Texto de Tracy Letts. Dá medo. Carcarah está perfeito no seu olhar assassino. Frio. Cheio de bom-mau-humor. E o que dizer da jovem atriz Ana Hartmann? E o seu cabelo de loira frágil? Doente? Psicossomática? Gabriel Pinheiro, como sempre, fiel e de alma entregue, atendendo ao chamado. Esse, do Mário. O de mostrar o quanto somos pequenos. E mortalmente solitários. Ainda no elenco, de novidade. No papel do pai apalermado, tem Fernão Lacerda. E ainda a imbatível Aline Abovsky. Sem temor, ela que tem de enfrentar, doa a quem doer, uma das cenas mais violentas que vi em teatro. Melhor do que no cinema. Do que na TV. Mário entende de tudo isto. Busca nessas referências o seu repertório. Nessas confluências o seu modo de sobreviver. Em meio a uma proliferação de peças bestas e vesgas que tomam conta das salas de São Paulo. Há quanto tempo acompanho a luta, de perto ou de longe, desse grande artista. Repito: manipulador de vidas. Entregando à plateia tantas (e tão tamanhas) conquistas. Viva! Em tempo: o espetáculo está em cartaz às sextas e sábados, 21h30, e domingos às 20 horas. Ali, no Teatro Cemitério de Automóveis, à Rua Frei Caneca, 384, e bora embora. E salve, salve-se.

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A ARTE DO ATOR

mutarelli-a-hora-errada-peça

Um ator nunca está sozinho. Digo: não é arte assim, como a do escritor. Em seu casulo, escrevendo. O ator inscreve. É mais autor do que o autor. Inaugura, bate estaca. Ele é um operário da palavra. Sabe o que vem antes de uma frase, o que vem depois de um ataque. Antecipa a dor da dor. O ator é todo um grupo de sentimentos. A galope. Um cavalo criador. Meu Cristo! Mas por que eu estou dizendo isto? Porque desde a semana passada fiquei, assim, de cara, com um grande ator no palco. Falo de Zémanuel Piñero. Ele que interpreta Horácio na peça “A Hora Errada” (foto acima). Texto de Lourenço Mutarelli e direção precisa e afiada de Tomás Rezende. E como mente o Zémanuel. E é tudo verdade. Vêm de longe as suas pausas. O seu silêncio é antigo. Quando corporifica um homem angustiado, desempregado, combalido. Ele faz com que eu, por exemplo, o vendo em cena, me recorde do tempo, primeiro, em que vim morar em São Paulo. Uma cidade cujo sistema me agonizou. E me provocou. Um universo, esse da metrópole e o da peça, pronto para nos fazer sumir. A toda hora, tendo de resistir à máquina. Um grande ator tira forças, as mesmas que um dia eu usei, para a dura batalha. Garimpa em sua alma a alma do mundo à sua volta. Parafusa as manobras todas. A gente crê que aquele casal, protagonista, agonizante, do espetáculo, viva ali, sempiternamente à mesa, à nossa espera. Quanta grandeza! Também Magali Biff, a sua (de Zémanuel) companheira de palco, é uma dessas grandes forças da natureza. A da arte, verdadeira, que devemos louvar. E aprender a apreender. Em que ser humano devemos confiar. Vale destacar igualmente, sobremaneira, os diálogos escritos por Mutarelli. Maduros e trágicos. E, até, engraçados na medida certa. Medida na medida. Essa que só um grande ator sabe pontuar. A mim, só me resta, aqui, humildemente agradecer. E compartilhar. Em tempo: quinta agora e sexta agora às 20 horas são os dois últimos dias da temporada no SESC Consolação. Corra para garantir o seu lugar e valeu e viva e abração.

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DOIS SERTANEJOS NA FRANÇA

EuCarrero

Esta foto acima, modéstia à parte, é histórica. Eu, em Paris, ao lado do mestre, escritor e amigo Raimundo Carrero. Em recente viagem que fizemos juntos pela França. O flagrante foi feito enquanto a gente descansa (na casa de nossa editora francesa Paula Anacaona) de uma viagem longa e, sobretudo, fraterna e instigante. Para saber mais sobre os bastidores dessa nossa verdadeira aventura literária, aviso, honrado: hoje acabo de estrear a minha parceria com o site Livre Opinião, de São Carlos, interior de São Paulo. Mensalmente, colaborarei com eles em textos primeiramente publicados por lá. Agradeço aos queridos criadores do site, Jorge Filholini e Vinicius de Andrade, pelo convite e acolhida. Confiram tudo clicando aqui em cima e espalhem a notícia e valeu por tudo e viva e maravilha!

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POEMINHA PREGUIÇOSO

*

só você
não me dá
preguiça.

só você
não me
enguiça.

só você
me faz abrir
o olho.

feito um olho
de cachorro
de olho
nos passos
do dono.

só você
me levanta
deste marasmo
me salva
deste abandono.

só você
e eu
teremos
uma razão
para viver.

para sempre
um para
o outro
escravos
do mesmo
cansaço.

até
morrer.

*

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