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Archive for setembro \30\+00:00 2020

ENSAIOS DE IMPROVISO

O AMOR PELA LITERATURA

Sem tempo para o verso. O ponto. A frase. O espanto. Sem tempo para leitura. A linha. A reza. A embocadura. Na atual conjuntura. O que fazer com o personagem à mercê? À toa? Nem sei como Fernando criou mais de uma Pessoa. Lisboa não é aqui. Nem corre um rio na minha aldeia. Tudo paisagem seca. Filho. Filha. Hora de trocar fralda. Do meu pai velho. Levar minha mãe lesa. À privada. Sentar com ela. Juntas. Na espera de um verso? Qual? Estou enxergando mal. Muita coisa para assistir. Para ver na tela. Meus óculos sem funcionar. Haverei de trocar as lentes. As plantas. Aguar as sementes. E tem uma dor. De vez em quando vem. Do além. Aleatoriamente. Sem atraso. Vou à luta. É só tirar um extrato do banco. Estão me roubando, poetas. Estão me roubando. Na hora em que eu parar para escrever. Será um verso de protesto, vocês vão ver. Gritarei à rua. Aquele meu livro continua em aberto. Aquele meu personagem do romance também. Tão elogiado por você o primeiro capítulo. Mas ficou naquilo. No mesmo canto em que deixei. Se der tempo, farei um livro fino, não sei. Uma vez foi você quem falou. Livro fino, tudo bem. Grã-fino é que não dá. Será mesmo que vale a pena insistir na literatura? É fuga. É um jeito de elevar o pensamento. Mas sento. E a alma não senta comigo. Um grito. De repente um chororô. Merda. Escorre a chuva pela janela. Se eu não fechar não tem quem feche. Em época de pandemia, poetas. Para que serve a poesia? Por mais que você me diga, professor, eu desconfio. Não nasci para esta entrega. Escrever é amor, não é? Um exercício de fé. Este vazio.

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PARA PENSAR ANDANDO

SOBRE AS ASPAS

Umas anotações colhidas no livro A Ideia da Prosa, do filósofo italiano Giorgio Agamben (foto).

A saber:

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“A palavra entre aspas só espera pela primeira oportunidade de se vingar.”

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“Quem alguma vez colocou uma palavra entre aspas nunca mais se livrará dela.”

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“As aspas são muros finos, instransponíveis. Formam o tribunal do pensamento.”

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“No lugar onde caiu uma voz, onde faltou o sopro da respiração, um minúsculo sinal está suspenso, em cima. Sem outro suporte além deste, hesitante, o pensamento aventura-se.”

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As aspas, acima, são minhas.

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ENSAIOS DE IMPROVISO

OS CLÁSSICOS VIVOS

Por que você não reclama com a Clarice Lispector? Está lá, o romance dela, repleto de pretérito-mais-que-perfeito. Contei nos dedos. Só no A Paixão Segundo GH, deixa-me ver, uns cento e oito, aposto: “Lembrei-me de ti, quando beijara teu rosto de homem, devagar, devagar beijara”. Você vive dizendo que quem trepara não trepou. E agora? Beijara beijou ou não beijou? E o excesso de “perguntou” e de “respondeu”? Os russos nesses usos, Meu Deus, não têm para ninguém. Ivan Karamázov disse-me-disse, Aliêksei Fiodorovitch também disse, retrucou, afirmou. Falou e, ali, ao que parece, tá falado. Quanta discriminação! Quer dizer que quando a gente escreve está errado? Só por que não somos estudados, é isto? O estilo deles é estilo, o nosso é falha. Vi até “os olhos cheios de lágrimas” no A Metamorfose de Kafka. Um sorriso estampado no rosto na obra de Proust. Duvida? Eu mostro. Em poesia, você vive pedindo para a gente evitar os versos centralizados. Vai lá na obra do poeta Antonio Cicero. Não reclamou com ele só porque ele é seu amigo? E Waly Salomão? Usa negrito, itálico, maiúsculo. Ele pode. Você vai dizer que Salomão era revolução. Quando a gente faz o mesmo, aberração. Falta de leitura. Pode ver que eu acompanho a literatura. Eu sei do que eu estou falando. Nenhum desses gênios conseguiria escrever em sua oficina. Machado de Assis, passa-se uma borracha em cima. Daria dó o seu Esaú e Jacó. Um dia eu mostro um texto assinado por Lima Barreto e vou dizer que é um texto meu. Só para ver a crítica que você fará. Rígida. Desse jeito não dá para a gente conversar. Clamo, aqui, por justiça. Igualdade na hora de cagar regra. Para você só presta, sobretudo, poeta ou prosador que já morreu. Eu escrevo igual a todos eles. Aviso. Sou um clássico vivo. Vai dizer que não? Ora, bolas. Por que nunca, então, me defendeu?

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ESCREVER É OSSO

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QUARANTENADO

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Já contei de Mario Bellatin algumas vezes aqui no meu blogue.

Por aí eu já contei idem.

Escritor mexicano. Um dos maiores da América Latina.

Já veio à Balada Literária. Já nos encontramos em festas e feiras pelo mundo.

Este acima foi nosso reencontro em Bogotá.

E o reencontro com a prótese que ele carrega em lugar da mão. Caralhão que eu defendi, publicamente, na Festa Literária Internacional de Paraty.

É muita história.

Reconto outro dia…

Estou aqui, na verdade, para dizer que Bellatin me deu um presente: interpretou um texto meu, intitulado Pan-de-mi-a.

Escrito na quarentena, traduzido por Eduardo Langagne e publicado na revista Bitácora del Encierro. Projeto tocado pelo incrível Phillipe Olé Laprune.

Saibam mais sobre a publicação clicando aqui em cima

E clicando aqui em cima, vocês leem o texto e assistem à leitura do amado Bellatin.

Salve e salve e cuidem-se e tenho dito.

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UM POEMINHA ANTIGO

Infelizmente, cada vez mais atual.

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QUARANTENADO

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Foi lá em Bogotá, na Feira do Livro.

No final da noite, fomos avisados que uma famosa escritora travesti, argentina, uma das convidadas do evento, iria fazer uma performance em um bar lá perto do hotel, onde estávamos.

Quem vai?

Claro que vamos e fomos.

A escritora: Naty Menstrual.

Nós: eu, Geovani Martins, Cecília Arbolave e João Varella.

Naty, acompanhada de uma base eletrônica (imagem acima), disse trechos de seus contos, reunidos no livro intitulado Continuadísimo (imagem abaixo).

O que significa “Continuadísimo”, Naty?

É um filme pornô que nunca para. Nos cinemas pornôs, aquela fita que passa, sem parar, enquanto a pegação rola solta.

Ir ao “Continuadísimo” é ficar o dia inteiro, ali, dentro do cinema.

Meu desejo é publicar a Naty por aqui, no Brasil. Além de escritora, é designer de moda e desenhista.

Segue um trecho de uma de suas “sessões literárias”, digamos.

Trecho do “Verborragia Uno (Sin pontuación como pienso velocidad kohinoor)”.

Salve e salve e vamos que vamos.

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Buenos Aires me está agrediendo el calor me mata bah el calor no específicamente la humedad el cuerpo lo tengo pegajoso me siento incomoda con maquillaje sin maquillaje con tacos sin tacos desnuda vestida si me desnudo cuando paso por el espejo me amargo prefiero morirme de calor antes que verme obligada a mirarme y asumir que me está envolviendo una blanca y fofa masa de cuero de chancho y encima el ventilador viejo que tengo me salva un poco pero solo cuando estoy acostada no puedo andar con un ventilador em la cabeza o enfrente de la cara colgando o como un sidecar al costado seria asquerosamente ridículo y sé que soy ridícula pero tengo mis limites una cosa es que me digan trava de mierda o puta pero otra cosa que sea la loca del ventilador portátil […]

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ENSAIOS DE IMPROVISO

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UM ESCRITOR AGITADO

É só dar uma olhadinha. Eu digo que não posso. Não vê? Estou envolvido em mais um evento literário. Reuniões, uniões de força. Tudo para deixar o troço em pé. Quando posso, então, hein, amigo, retomar o contato? Sou educado, pois é. Na pressa, correndo de um link para o outro, ainda aviso. Deixa para quando tudo acabar. Aí a gente volta a se falar. À primeira hora depois de o evento encerrar, lá está o escritor. Podemos conversar agora? O que mais tivemos na Balada foram conversas, ora. Bate-papos sobre o árduo trabalho literário. Muitos poetas participaram, do Brasil todo. Rolaram saraus. Eu mesmo saí tonto de tanta possibilidade: cineastas que eu não conhecia. Cantores, atores. A cada momento, on-line, outros agitadores e agitadoras do pensamento, da arte. Até agora, continuo remoendo na memória. Feito uma sucuri. Uma jiboia. Sei lá. Parabéns, caralho, você é foda. Poderia ler o meu romance? Não quero um “não” como resposta. Diz que são poucas páginas. Assim, só para ver como meu livrinho está. Você sempre será o meu padrinho de ofício. Mais uma vez, com calma, eu explico: para montar uma programação deste tamanho há de haver uma preparação. Sem contar uma pandemia nos atravessando. E os recursos da tecnologia. As plataformas. Conexões. Todo dia uma novidade. Um perrengue. Uma apreensão. E tem aquele minuto em que, para o público, tudo começa e tudo tem de funcionar. Ao telefone, correndo para contornar, com a afiada equipe, os percalços que surgem. Dezenas e dezenas de convidados e convidadas. Mais os afazeres da casa, nunca antes tão habitada. O fim de um almoço, os pratos. A torneira que deu para vazar. Aquele parceiro que está precisando, mais de perto, de nosso apoio sentimental. A inspiração recebida de uma das mesas de debate, etc. e tal. Bateu em mim uma vontade de escrever um texto. O mundo, sim, tem jeito. Animado que a gente fica. Cheio de coragem renovada. Sem medo. Ele insiste. Prometo que você irá gostar. É o romance da minha vida, cara. Por favor, me diz uma palavra. Será uma boa leitura, com certeza. Boa para relaxar. Digo mais uma vez para ele dar mais um tempo. A propósito, não vi você acompanhar o evento. Ele, de fato, não acompanhou nadinha. Diz que estava relendo o “longo texto” para me mostrar. Não é o que um escritor de verdade deve fazer? Assim, se juntar? Você não para quieto. Que inferno. Quando estará livre para a gente trocar?

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ESCREVER É OSSO

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100 ANOS DE GUIMARÃES

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” Se era boa? Tão boa como mel de jati. É que a Mãe de Ouro tinha enfeitiçado o homem. A Mãe de Ouro mora do outro lado da serra. Pra lá fica Juruna, no Itaparica, e é um estirão de mais de cem vezes a distância de Nossa Senhora dos Olhos D’Água a Maria da Fé. Pois ele bateu o pé, moço, bateu o pé, com o sapicuá de farinha nas costas. Água não era preciso. Água dá à toa por aí, brota do chão, e nenhum filho de Deus nega água a quem tem sede. Mas é melhor contar do começo. Antigamente isto aqui não era assim. Quero dizer, era e não era. “

Assim começa o romance Água Funda. Estreia de Ruth Guimarães na literatura. Publicado em 1946, no mesmo ano de Sagarana, estreia de Guimarães Rosa como prosador. Autor de quem Ruth foi amiga pessoal.

A gente falou de Ruth Guimarães na abertura da Balada Literária quinta passada (foto dela acima). 2020 marca o centenário desta escritora paulista, nascida em 13 de junho de 1920 e falecida em 2014.

Ela que, neste Água Funda, antecipa o realismo fantástico latino-americano. Ela que dedicou idem boa parte de sua vida à pesquisa folclórica e à tradução – são dela as primeiras traduções de Balzac e Dostoiévski.

Eta danado!

Durante a Balada, dedicada a outra Guimarães, a poeta Geni Guimarães, resolvemos saudar as escritoras negras. Grandes brasileiras que, se muita gente conhece, muita mais gente ainda precisa conhecer.

Fica o recado.

Salve e salve e viva e beijabraços.

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