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Archive for setembro \18\UTC 2012

FOGO NA BRASA

Um dia esse povo
deixará de ser
pneu e carvão

Não mais será
palha e papelão

Um dia esse povo
cansará de ser
jornal e plástico

Deixará de ser tábua
sem salvação

Um dia esse povo
não virará cinza
nem cinzeiro

Nenhum cheiro no ar
de fósforo e fumaça

Não deixará de graça
a sua morada

Não precisará
de bombeiro

Negará a ajuda
do governo

Um dia esse povo
queimará
o tempo inteiro

Ninguém o apagará
do mapa

Um dia esse povo
será fogo na brasa

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MELANCÓLICO

A evangélica e a filha da evangélica
de mãos dadas à Bíblia, as duas
a caminho do culto

O velho apertando os olhos
e a pasta de documentos
no assento cinza do metrô

A moça do pedágio
ou a velha descendo para a praia
no banco detrás, apertada
entre os netos gordos

A faxineira da rodoviária
no final da madrugada
ela e a vassoura azul e amarela
e os Sonhos de Valsa

O recruta que monta guarda
à guarita, no Recife
à boca da praia de Boa Viagem

A Travesti fumando com os olhos
os clientes daquele bar
a sinuca sem jogar, a noite

O primeiro feirante
que chega para montar
a barraca de tomates

A vendedora de alhos
à mesma feira, no meu bairro

A mocinha feia que me recebe
sem dinheiro, mas elegante
à porta do restaurante

O garçom trocando a tolha de papel
em que escrevo este poema
meio sem jeito

Esta dor
que às vezes dá no peito

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EU E AS TORRES GÊMEAS

Eu estive lá.

E trouxe essa foto (ao lado) para provar.

Eu mesmo cliquei as Torres Gêmeas. Três meses antes de elas tombarem, no ano de 2001.

Foi assim: eu fui o vencedor de uma promoção de um shopping em São Paulo. A melhor frase ganhava uma viagem, com direito a acompanhante, para Nova Iorque.

Parti com a minha amiga Estela Luz – passamos uns quinze dias na Big Apple batendo pernas.

Nessa manhã nublada em que visitamos as Torres, tínhamos ido lá fazer compras.

Também almoçamos em um dos restaurantes do térreo.

Na saída, não sei por que, passei mal.

Fui correndo ao WC do WTC.

Suei frio.

Passei vergonha com aquelas portas dos banheiros americanos.

À altura de nossos joelhos, todo mundo vê a gente.

Na privada, soltando bombas.

Inocentemente.

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O AMOR DE VERDADE

Não é o amor o que une as pessoas. Sentimento abstrato este. Ave nossa! Não. Não é o coração que bate o olho e que escolhe.

Vejo esta foto, de meus pais. Cada um em sua juventude. Aqui, numa mesma pose à minha cabeceira. Duas vidas que se irmanaram.

Não foi o amor, repito, quem fez isto. O amor é invenção. Os dois aí não tinham tempo para floreios da imaginação. Nenhuma palpitação.

O que une as almas é o respeito gêmeo. E mútuo. A cumplicidade. A companhia. A amizade. A paciência. A crença de que, somados, burlaremos qualquer destino.

Vão dizer: e não é o amor, afinal, quem faz este milagre, etc. e tal?

Não, não é. É a realidade que faz o sonho, de verdade, acontecer.

Doa a quem doer. Um ao lado do outro, para sempre.

Fica mais fácil viver.

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