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Quem disse que eu sou branco?
Bicho? Santo?
Quem disse que eu sou Deus?
Que eu sou crente?
Gente?
Quem disse que eu sou
ateu?

Quem disse que eu sou
do Nordeste?
Cabra?
Da AIDS?
Da peste?
Quem disse que eu sou belo?
Másculo? Magro?
Gordo? Hétero?
Gay?

Quem disse que eu posso?
Que eu sou rico? Rápido?
Quem disse que eu tenho algo?
Rim? Pulmão?
Régua? Esquadro?
Quem disse que eu sou bom?
Rei? Rato?
Dos males o melhor?
O pior dos condenados?

Quem disse que eu não sou
negro?
E se eu pinto o cabelo?
Se estou novo? Velho?
Emo? Zen? Moderno?
Quem disse que sou o filho
preferido?
E se mudei de sexo?
E se eu não levo em conta
entre as coxas bambas
o que carrego?

Quem disse que sou o Diabo?
O dono do mundo?
O certo? Ereto? O mais errado
entre os espertos?
Quem disse que eu sei?
Que li?
Que voarei além?
Quem disse que eu estou
ao seu lado?
Meu coração
quem disse que bate
bem?

Quem disse que eu sou todo
amor?
Quando planto o terror
quem eu sou?
Quando apoio o regime?
A morte? O crime?
Preso a um ideal?
Entrarei no céu?
Sem graça?
Cadê o meu humor?

Quem disse que eu sorrio?
Que confio na vida?
Perdeu quem apostou
que eu sou patriota.
O que darei em troca?
Quem disse que eu não trairei
a quem tudo me confiou?

Quem disse que eu não tenho
medo?
Diante deste espelho nu.
Nua
a minha alma
é cega.
Sábia. Suja.
Do palacete à rua.
Da lua ao sol.
Minha solidão
filha da puta.
É feliz? Infeliz?

Quem disse de mim
não sabe o que
diz.

*

Venha comemorar com a gente os 100 anos de Manoel de Barros e os 80 anos de Adelaide Carraro, Ignácio de Loyola Brandão e Luis Fernando Verissimo. A homenagem, a cada um deles, faz parte de mais uma edição do projeto AuTORES EM CENA, do qual eu sou o curador, e que acontece no Itaú Cultural, SP. Sábado, 6/8, 20 horas, a festa é para Manoel e Adelaide. Domingo, 7/8, 19 horas, é a vez de Loyola e Verissimo. A entrada é franca. Saiba mais detalhes clicando aqui em cima e salve e salve e a gente se encontra lá e aquelabraço.

 

 

AniversAut

Data da foto: 2008 Manoel de Barros no documentário “Só Dez por Cento É Mentira”, de Pedro Cezar.

Acabei de escrever um texto sobre a peça “Ossos” (foto abaixo da noite da estreia), baseada em meu romance e montada no Recife pelo Coletivo Angu de Teatro. No texto, dou um recado contra a homofobia à luz idem do último atentado lá em Orlando. Leia minha coluna clicando aqui em cima, no site do Livre Opinião – Ideias em Debate. E aquelabraço solidário a todos e todas e salve e salve.

Peça

Bolabando*

Está precisando o nosso coração. De uma grande revolução desde já. E ouso testemunhar: duas estão em curso. Agora, no ar. Uma em São Paulo, outra no Rio de Janeiro.

Prepare, companheira, companheiro, as armas do peito.

Em cartaz, às terças-feiras de maio (hoje tem), às 20 horas, no Teatro Olido, centro de São Paulo, sobe ao palco o pianista, cantor e compositor cubano Bola de Nieve (imagem acima).

Morto em 1971, ele está vivo. Vivíssimo. Em sua negritude, gemido, grito, sorriso, urgente de sentidos.

Explico: a cantora Fabiana Cozza (imagem ao alto), ao lado do pianista Pepe Cisneros, revisita clássicos como “Vete de Mi”, “Ay, Amor” e “Tata Cuñengue”. Mais do que revisita. Pontua, inaugura, empresta o corpo. Com que grandeza e pertinência! Politica e liricamente tomada pela aura crioula do Nieve.

Um concerto gigante. Salve, salve! E olhe que já vi Fabiana à frente de grandes homenagens. A Clara, a Elizeth, ao samba, a Edith Piaf. Mas aqui, neste “Canto Teatral para Bola de Nieve”, sob direção precisa, apaixonada e mortal (porque nos arrebata) de Elias Andreato, algo aconteceu.

Sobretudo, na atmosfera atual.

Não é show. Não é musical. Vai além. Todo artista sabe bem a hora de dar o recado. De arregaçar o verbo, a voz aos saltos. É antológica a aparição da cantora – toda em preto. Por dentro e por fora. Por exemplo, na hora em que enterra os restos mortais de nossa pátria (em “Babalú”) ou em que pede extremoso cuidado ao nosso coração em frangalhos (na arrepiante “Be Careful, It´s My Heart”). Ao solo do piano do também cubano Pepe – ao que parece, nota a nota, dizendo a cada um de nós: se toque. Avante, moçada, à rua. Estamos juntos nesta luta. Só a arte, de verdade, é o que nos salva.

E no Rio, a mesma manobra. Na raça. Digo, agora, do espetáculo “Ocupação Cidade Correria” (segunda imagem). Há muito tempo eu não via tamanha entrega. Em cena aberta. Jovens atores da periferia compuseram uma arena política. Muito mais do que política: lírica raivosa idem. De enfrentamento coletivo. Chegam tomando nossos pulsos nervosos. Grave o nome do grupo: Bonobando.

Vez ou outra me pus a dizer: o que há anos atrapalha o teatro carioca é o Projac. Nas peças que por lá pisei, tudo sempre feito, pálida e frigidamente, para entrar na Globo. O ator, estrelinha, querendo ser visto na ribalta e ir logo para a telinha.

Longe disso nessa “Ocupação”. Quanta liberdade! Para falar das feridas da cidade. Do descaso. Da cor da pele atravessando a paisagem. Em cenas memoráveis, como a do ator Igor da Silva, tirando uma roupa atrás da outra e mostrando que, por trás da farda de policial, do uniforme de gari, do avental de doméstica, até por dentro da sunga vermelha da praia, é tudo negro. E pobre. No imenso espelho que nos espelha, trágico e nu.

A peça, já clássica porque necessária, ocupará o Teatro Sérgio Porto, no bairro de Humaitá, até o final deste mês de maio. A direção, impecável, é da dupla Adriana Schneider e Lucas Oradovschi. A dramaturgia, pulsante e vibrante, é dos jovens ali reunidos. Explosivos, rasgados de paixão. Prontos, assim como Fabiana Cozza, para a verdadeira revolução.

Você, por acaso, vai ficar parado aí em casa, com tudo isto acontecendo à nossa volta? Hein? Hermano, mana, meu irmão?

*

A pedido de Diogo Guedes, do Jornal do Commercio, lá do Recife, participei de uma homenagem, hoje, ao aniversário de 130 anos do poeta Manuel Bandeira. A ele, dediquei uma “Evocação de São Paulo”. Confira o poema abaixo e viva e salve e salve e aquele superabraço.

*

EVOCAÇÃO DE SÃO PAULO

Recife de Piratininga
Das ladeiras e carreiras
Filas e estacionamentos
Dos carros em parafuso
Dos viadutos e noias
Roberto Piva e Paranoias
Recife da Estação da Luz
Da São João do João
Silvério Trevisan
Recife Purpurina
Da Rua em que vim um dia
amarrar os meus cavalos
Bois e boys
Recife do Arouche
Tenho medo de que achem feio
o nome da rua bem no centro
deste Centro nervoso
Rêgo Freitas não é título que se dê
Minhocão muito menos
Acham estranhos os nomes
das vias da Vila Madalena
Girassol Simpatia Harmonia
Não expulsem as travestis
da Praça Roosevelt
Nem os vendedores de milho
Não deem tiros no meu peito
Recife do meu primeiro
Beijo aos pombos
Recife tão grande
Longe e perto e amplo
Recife meu sentimento
Mais concreto
Saraus abrindo versos
Entre São Paulo e Pernambuco
Recife aqui dentro
Para além do esquecimento
Bandeira em plumoso movimento
Pela Avenida Paulista
Recife a todo momento
Minha vida que poderia
Ter sido e segue comigo
A perder de vista
Para além deste poema

*

Hoje saiu um anúncio nos jornais com dezenas de indústrias e associações e sindicatos de autopeças e grupos do agronegócio assinando movimento a favor do Impeachment. Sobre isto, acabei de escrever no site Livre Opinião. Contra as indústrias. E a favor da arte sempre. Ao lado de artistas como Phedra D. Córdoba, por exemplo. Ela, em foto abaixo com José Celso Martinez Corrêa. Nossa eterna teimosia. E inspiração. Clique aqui em cima para conferir e salve e salve e aquelabração.

Phedra

*

a mulher a
letra
que batiza a
terra a
cidade a
selva a
pedra a
lua a
rua a
sorte a
morte a
vida
toda a
palavra
menos esta
o dia
de hoje
este dia é
macho é
masculino
termina depressa
logo é findo
não pode ser
o dono da
verdade
toda mulher
sendo ela a
própria
eternidade

*

 

 

 

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