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baladacampanha

Acabei de escrever sobre o filme “Aquarius”, que resgata a minha (nossa) história. Pernambuco, oco, falando para o mundo. Este novo trabalho do diretor Kleber Mendonça Filho é “demolidor e edificador”. Leia o artigo e espalhe. Clicando aqui em cima no site do Livre Opinião. E salve e salve e vamos que vamos. E avante e viva Sonia Braga e beijabração.

Predios

[ Acima, imagem do Recife Antigo, extraída do filme “Aquarius”, sem as “Torres Gêmeas”, fruto da especulação imobiliária feroz que toma conta da cidade ]

 

 

*

a quem para o brasil
me pediu

um poeminha
sobre o golpe

não serve
um serrote?

uma bala?
o sangue na praça?

hoje aqui só
palavra de desordem

fogo de favela vingada
a cabeça de um índio

a fúria do mais antigo
assassino

o pau a língua a unha
o bote

a lava de um vulcão
que escorre

latindo latino
o ódio canino

de um justiceiro a praga
de um cangaceiro

a pomba branca
quando gira

a resistência de
antônio conselheiro

só o que tenho
este espinho no peito

este corpo de poeta
franzino

pronto para a guerra
cobra morta

já e agora pelas mãos
de um passarinho

*

 

*

Quem disse que eu sou branco?
Bicho? Santo?
Quem disse que eu sou Deus?
Que eu sou crente?
Gente?
Quem disse que eu sou
ateu?

Quem disse que eu sou
do Nordeste?
Cabra?
Da AIDS?
Da peste?
Quem disse que eu sou belo?
Másculo? Magro?
Gordo? Hétero?
Gay?

Quem disse que eu posso?
Que eu sou rico? Rápido?
Quem disse que eu tenho algo?
Rim? Pulmão?
Régua? Esquadro?
Quem disse que eu sou bom?
Rei? Rato?
Dos males o melhor?
O pior dos condenados?

Quem disse que eu não sou
negro?
E se eu pinto o cabelo?
Se estou novo? Velho?
Emo? Zen? Moderno?
Quem disse que sou o filho
preferido?
E se mudei de sexo?
E se eu não levo em conta
entre as coxas bambas
o que carrego?

Quem disse que sou o Diabo?
O dono do mundo?
O certo? Ereto? O mais errado
entre os espertos?
Quem disse que eu sei?
Que li?
Que voarei além?
Quem disse que eu estou
ao seu lado?
Meu coração
quem disse que bate
bem?

Quem disse que eu sou todo
amor?
Quando planto o terror
quem eu sou?
Quando apoio o regime?
A morte? O crime?
Preso a um ideal?
Entrarei no céu?
Sem graça?
Cadê o meu humor?

Quem disse que eu sorrio?
Que confio na vida?
Perdeu quem apostou
que eu sou patriota.
O que darei em troca?
Quem disse que eu não trairei
a quem tudo me confiou?

Quem disse que eu não tenho
medo?
Diante deste espelho nu.
Nua
a minha alma
é cega.
Sábia. Suja.
Do palacete à rua.
Da lua ao sol.
Minha solidão
filha da puta.
É feliz? Infeliz?

Quem disse de mim
não sabe o que
diz.

*

Venha comemorar com a gente os 100 anos de Manoel de Barros e os 80 anos de Adelaide Carraro, Ignácio de Loyola Brandão e Luis Fernando Verissimo. A homenagem, a cada um deles, faz parte de mais uma edição do projeto AuTORES EM CENA, do qual eu sou o curador, e que acontece no Itaú Cultural, SP. Sábado, 6/8, 20 horas, a festa é para Manoel e Adelaide. Domingo, 7/8, 19 horas, é a vez de Loyola e Verissimo. A entrada é franca. Saiba mais detalhes clicando aqui em cima e salve e salve e a gente se encontra lá e aquelabraço.

 

 

AniversAut

Data da foto: 2008 Manoel de Barros no documentário “Só Dez por Cento É Mentira”, de Pedro Cezar.

Acabei de escrever um texto sobre a peça “Ossos” (foto abaixo da noite da estreia), baseada em meu romance e montada no Recife pelo Coletivo Angu de Teatro. No texto, dou um recado contra a homofobia à luz idem do último atentado lá em Orlando. Leia minha coluna clicando aqui em cima, no site do Livre Opinião – Ideias em Debate. E aquelabraço solidário a todos e todas e salve e salve.

Peça

Bolabando*

Está precisando o nosso coração. De uma grande revolução desde já. E ouso testemunhar: duas estão em curso. Agora, no ar. Uma em São Paulo, outra no Rio de Janeiro.

Prepare, companheira, companheiro, as armas do peito.

Em cartaz, às terças-feiras de maio (hoje tem), às 20 horas, no Teatro Olido, centro de São Paulo, sobe ao palco o pianista, cantor e compositor cubano Bola de Nieve (imagem acima).

Morto em 1971, ele está vivo. Vivíssimo. Em sua negritude, gemido, grito, sorriso, urgente de sentidos.

Explico: a cantora Fabiana Cozza (imagem ao alto), ao lado do pianista Pepe Cisneros, revisita clássicos como “Vete de Mi”, “Ay, Amor” e “Tata Cuñengue”. Mais do que revisita. Pontua, inaugura, empresta o corpo. Com que grandeza e pertinência! Politica e liricamente tomada pela aura crioula do Nieve.

Um concerto gigante. Salve, salve! E olhe que já vi Fabiana à frente de grandes homenagens. A Clara, a Elizeth, ao samba, a Edith Piaf. Mas aqui, neste “Canto Teatral para Bola de Nieve”, sob direção precisa, apaixonada e mortal (porque nos arrebata) de Elias Andreato, algo aconteceu.

Sobretudo, na atmosfera atual.

Não é show. Não é musical. Vai além. Todo artista sabe bem a hora de dar o recado. De arregaçar o verbo, a voz aos saltos. É antológica a aparição da cantora – toda em preto. Por dentro e por fora. Por exemplo, na hora em que enterra os restos mortais de nossa pátria (em “Babalú”) ou em que pede extremoso cuidado ao nosso coração em frangalhos (na arrepiante “Be Careful, It´s My Heart”). Ao solo do piano do também cubano Pepe – ao que parece, nota a nota, dizendo a cada um de nós: se toque. Avante, moçada, à rua. Estamos juntos nesta luta. Só a arte, de verdade, é o que nos salva.

E no Rio, a mesma manobra. Na raça. Digo, agora, do espetáculo “Ocupação Cidade Correria” (segunda imagem). Há muito tempo eu não via tamanha entrega. Em cena aberta. Jovens atores da periferia compuseram uma arena política. Muito mais do que política: lírica raivosa idem. De enfrentamento coletivo. Chegam tomando nossos pulsos nervosos. Grave o nome do grupo: Bonobando.

Vez ou outra me pus a dizer: o que há anos atrapalha o teatro carioca é o Projac. Nas peças que por lá pisei, tudo sempre feito, pálida e frigidamente, para entrar na Globo. O ator, estrelinha, querendo ser visto na ribalta e ir logo para a telinha.

Longe disso nessa “Ocupação”. Quanta liberdade! Para falar das feridas da cidade. Do descaso. Da cor da pele atravessando a paisagem. Em cenas memoráveis, como a do ator Igor da Silva, tirando uma roupa atrás da outra e mostrando que, por trás da farda de policial, do uniforme de gari, do avental de doméstica, até por dentro da sunga vermelha da praia, é tudo negro. E pobre. No imenso espelho que nos espelha, trágico e nu.

A peça, já clássica porque necessária, ocupará o Teatro Sérgio Porto, no bairro de Humaitá, até o final deste mês de maio. A direção, impecável, é da dupla Adriana Schneider e Lucas Oradovschi. A dramaturgia, pulsante e vibrante, é dos jovens ali reunidos. Explosivos, rasgados de paixão. Prontos, assim como Fabiana Cozza, para a verdadeira revolução.

Você, por acaso, vai ficar parado aí em casa, com tudo isto acontecendo à nossa volta? Hein? Hermano, mana, meu irmão?

*

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