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Estive na noite de sexta passada na primeira live do rapper e grande poeta e artista Rico Dalasam (acima). O assunto era “Todos Contra o Tráfico de Pessoas”. Fiz um texto inédito para a temática e a ocasião. Segue o linque para quem quiser assistir à apresentação. E abaixo o texto “Qual É Que É” na íntegra para leitura. Salve e salve e cuidem-se e beijos.

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QUAL É QUE É

de tanta gente entre-e-sai de passageiras e passageiros
aos cotovelos pelas manhãs os pombos abrem as asas
são tantos os ratos urbanos sobre os trilhos do trem a linha
do corpo do povo entulhado vaivém na marmita de tupperware
o tráfico de pescoço de galinha e farinha não é preciso
que eu diga mais é preciso? o destino você sabe

qual é que é

no caminho para o emprego prega o olho no whats-up não sabe
o que é notícia fake porque tudo é verdade dia a dia o vestido despido
de vida é deixado no armário de aço antes de pegar no pesado a faxineira veste azul uniformizado guarda Cristo no meio da cicatriz do peito encostada na vassoura deixa de ser uma pessoa a mulher não é preciso
que eu diga mais é preciso? o destino você sabe

qual é que é

a babá na praça para lá e para quieta senta o sol bate na testa enquanto
a criança brinca na areia aérea a babá sente que está cansada mas não pode desanimar aprendeu desde menina a levantar os olhos para o céu naquela mesma nuvem nordestina viajou até chegar àquele banco financeiro a prestação do berço está atrasada mas há de pagar se Deus aprouver não é preciso que eu diga mais é preciso? o destino você sabe

qual é que é

as pernas as pernas as pernas nos degraus pelas esquinas abertas
as lojas de roupa os viadutos cobertos de pó os africanos de óculos
escuros cabo-verdianos senegaleses o homem que suado de sol enxerga
o menino correr para limpar a merda dos vidros dos carros fechados
na cara mil vezes voltasse para os sonhos de sua terra Conacri Guiné
não é preciso que eu diga mais é preciso? o destino você sabe

qual é que é

não dá trégua não tem acordo sem chance não há fôlego sem respiro algum é o jogo é o fogo é a luta neste sufoco longe do porto seguro a saída é
por dentro do túnel no oco do mundo o muro qualquer onda de mar
que se levanta na esperança de alcançar não alcança jamais o outro lado
já ficou para trás é um por cima do outro para quem ficar em pé?
não é preciso que eu diga mais é preciso? o destino você sabe

qual é que é

não somos todos iguais
quando o futuro
entre nós
tanto fez
como
tanto faz

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Ele é Néstor Perlongher.

Lamê é um título que eu compraria. Digo o “título” mesmo, o “nome” do livro. Feito os sambistas compravam parcerias em uma criação.

Explico melhor: eu vivo comprando, imaginariamente, títulos de outros autores.

A saber, em resumo: eu escreveria um livro chamado Lamê.

Sim, lamê é o nome dado àquele tecido brilhoso ou cintilante. Palavra e tecido da minha infância. Junto a um perfume de alfazema, está feito o traje. Debaixo de sol pernambucano.

Perlongher é de uma sexualidade transbordante.

Nascido na periferia da Argentina em 1949, viveu em São Paulo, estudou e deu aulas na UNICAMP.

Escreveu vários livros de poesia: Evita Vive, Águas Aéreas e Alambres. Outros três títulos que eu compraria.

Quanto?

São dele também os livros de ensaio O Negócio do Michê (consultei para escrever Nossos Ossos) e O Que É AIDS, ambos publicados pela Brasiliense.

Néstor Perlongher faleceu em São Paulo em 1992.

Seu (meu) Lamê reúne uma mostra, bilíngue, de seis de suas obras (tradução de Josely Vianna Baptista).

Abaixo, segue a poesia Canto da Ilusão.

O bom da quarentena é a reordenação de nossas leituras-universos.

Amor e paixão.

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Escamas, redemoinhos, fervores me rodeiam…
“Mariri”, mãe da ilusão, em remoinhos te aproxima…
Estou na “mareação” com prazer, já fui embora, não desanimo, vou
com gosto, vou te fazer ver, vou te fazer vir, vem sem medo,
na mesma ilusão de prazer, que te faz ver coisas lindas.
A força que me faz ver almas como pó cai do meu lado…
Sente-se como um pássaro que perde suas penas…
Na casa da sucuri, na casa da sucuri, na casa da sucuri, o tigre pequenino
atirado do monte vem cair, atirado do monte vem cair, entra, o tigre,
o tigre na casa da sucuri, cai, entra, cai, entra, parece cabeças
verdes, cabeças verdes, cabeças verdes…

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O LUGAR-COMUM

É comum que ele esteja nos esperando. Algo já escrito em algum lugar. Eu sempre digo: coloque uma frase no Google. Se o Google escrever a frase antes, troque a frase. Exemplos: sussurrou baixinho ao seu ouvido. Baixinho, é claro. Se foi gritando não é mais sussurro. E no ouvido é onde se pode sussurrar. E marejar? E encher os olhos de lágrimas? E chorar copiosamente? Eu nunca chorei desse jeito, aviso. Nem jamais pensei com os meus botões. Tudo frase feita. Recomendo a leitura de O Pai dos Burros. Dicionário de clichês organizado por Humberto Werneck. Jornalista e escritor que dispensa apresentações. Eis algumas de suas anotações, a fim de despertar, em quem escreve e lê, o mais vivo interesse. Eta danado! Longe de fazer a você uma crítica ácida. Muito menos que o assunto caia feito uma bomba na cara de ninguém. Vejamos. Evitemos: dose cavalar. Banhar as mãos de sangue. Caminhar a passos largos. Na intimidade do seu quarto (mesmo durante a quarentena, expressão manjada, batida). Melhor é pensar antes de usar: a ofensa gratuita. A obediência cega. Neste calor de rachar. Ou abrasador. Relaxemos. Não estou querendo botar banca. Nem posar de superior. Esse texto procura, digamos, preencher uma lacuna. Sei lá. Mostrar como há frases que saem à caça de um autor. De uma autora. O descuido pode ser fatal. Cerque-se de cuidados. Aguçar os sentidos é o ideal. É preciso entender do riscado ao construir uma obra. Você não está sozinho ou sozinha nesta hora. Nesse duro embate que é a literatura. Sempre coberta de nuvens ameaçadoras. Prontas a desabarem no seu talento promissor. Um perigo que ronda a todo instante. O seu estilo elegante. Só vim para ajudar. Não me leve a mal, por favor. Não faça essa cara de quem comeu e não gostou. Entendo, até, que você defenda com unhas e dentes o alto patamar no qual você chegou. O mundo dá muitas voltas. Amanhã será um novo dia. Que tal pôr uma pedra em cima desse assunto, não é? Com o rabo entre as pernas fui. Já não está mais aqui quem falou.

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Relendo aqui o poeta Max Martins (acima). Um de nossos grandes poetas. Nascido em 1926 em Belém do Pará. Morto em 2009 também em Belém.

Aqui alguns de seus “inscritos” (inscrever = fundar).

Anotações (do livro O Risco Subscrito) que eu escolhi para eu mesmo anotar, em um caderno.

Versos que me vieram molhar os pés, em sua “página-praia” – como ele mesmo chamava.

Eis essas ilhas abaixo:

[1] O poema é fome / de si mesmo.

[2] O poeta se refaz / se lavradiz.

[3] O verso se desfaz / se movediz.

[4] O rio que ele esqueceu / atrás da porta.

[5] Um buraco sem fundo / cheio de palavras.

[6] E que rastro ou rosto é essa / palavra?

[7] Ostra / (ou astro)?

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Novas categorias para o Prêmio do Teatro Brasileiro.

Que nome receberá esse novo teatro? Teatro On-Line? Teatro Ao Vivo? Teatro Aos Vivos?

Empesteatro? Teatro Pandêmico? Pandemônico? Surto Criativo? Teatro em Companhia?

O diretor pernambucano Marcondes Lima já chama essa nova cena de Teatro Possível.

Quando ficar decidido o batismo, pensemos nas novas categorias. Um prêmio para as peças em cartaz. Em cartaz? Em temporada? Mais um capítulo de uma série televisiva?

A sessão (sessão?) começa pelo ingresso. Que não é mais ingresso. É acesso. O terceiro toque ficou eletrônico. O novo ponto eletrônico, seria? Uma voz metálica dá instruções para começo do espetáculo. Mas cadê, então, os espectadores?

Todos, agora, telespectadores.

Uma platéia no escuro. Isso continua igual… Mas o público ganhou “nome” (notem o meu na foto acima). Cada um em sua cadeira assinada. Cadeira? E se eu estiver na cama? No banheiro? Pelado? O teatro implícito. Eu, explícito por dentro de casa.

Sábado passado por exemplo, bebendo cerveja e comendo amendoim, eu assisti à fabulosa peça Ser José Leonilson.

Peça? Na divulgação, consta “Versão Audiovisual”. Tratando-se de Leonilson, não seria uma instalação?

Instalação elétrica.

O ator Laerte Késsimos (foto idem) está plugado. Da cabeça dele, descem uns fios. Parece que ele, o personagem, está em um búnquer. Mas é um ateliê. Onde o artista mineiro (Laerte) confunde-se com o artista cearense (Leonilson).

O próprio Késsimos não sabe se está. Não sabe se é. Em que lugar veio parar. Em minha casa, fui eu mesmo quem apagou as luzes. A luz da tela do computador transformou a minha sala em palco apocalíptico.

Já nas primeiras cenas, estamos em luto.

A morte, o amor, a impossibilidade, o coração impostor. Intensidade poética sem limite. Realidade? Sonho?

Quem deita a cabeça no travesseiro?

A dramaturgia (teledramaturgia) ora vira conferência, documentário, ora autoficção. Tudo para contar a trajetória artístico-afetiva de Leonilson.

E contar o percurso também de Késsimos. Entre o rio, o desejo, a obsessão, o ofício da pesca (seu pai foi pescador), o ofício do teatro (a escolha que fez o filho).

Teatro sempre pleno. Não importa em que suporte. Em que forma. Em qual plataforma. Em um plano geral ou em um Zoom.

A verdade é única: todos os prêmios para a melhor entrega que eu já vi, nos recentes tempos, de um artista. Interpretando, conduzindo os instrumentos, manejando os infinitos recursos.

Desde já começarei uma campanha acirrada.

Dirigido por Aura Cunha (com texto de Leonardo Moreira a partir do cruzamento de diários e confissões de dois outros éles, Laerte e Leonilson), Késsimos em sua quarentena, em época tão dramática, tem de levar todos os prêmios para casa.

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EM TEMPO: na quarta agora, às 20h30, acontecerá a última exibição. É via sympla.com.br a “ampla” conexão.

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[01] Amanhã, sábado, eu volto à minha live Na Hora do Almoço. Ao meio-dia em ponto a conversa, no meu Instagram, será com o cantor e compositor pernambucano Vertin.

[02] E no domingo agora, na mesma hora, eu converso com a cantora e compositora paulistana Ná Ozzetti.

[03] Aliás, ontem participei de um papo com o escritor, editor e mestre Wellington de Melo. Na página dele no Youtube. Um papo muito valioso para mim. Gosto de falar “por dentro” da estrutura de meus textos. Eta danado!

[04] Quem não viu, é só ir neste linque. E aproveitem para acompanhar as leituras e comentários literários de Wellington. Já falei dele aqui uma vez. Eu continuo acompanhando as “oficinas” on-lines que ele tem dado por lá.

[05] Ontem também participei de uma live muito legal no projeto Sempre Um Papo. Na companhia do parceiro Afonso Borges e do mais jovem escritor a participar do programa, João Victor Idaló. Linque aqui.

[06] Aliás, ontem foi um dia agitado. Teve o lançamento da antologia Pandemônio, organizada por Cristina Judar e Fred Di Giacomo e que reúne nove narrativas de escritoras e escritores que moram no Brasil e na Alemanha.

[07] Vocês podem baixar a Pandemônio gratuitamente. É só acessar aqui. E acessando aqui vocês podem assistir à conversa com alguns dos participantes do projeto.

[08] E acaba de sair a nova edição da revista da Revistaria. Cliquem aqui em cima e acompanhem a edição dedicada ao cinema.

[09] E hoje, sexta, estamos a um mês do começo da Balada Literária lá em Teresina. Mais uma vez o evento parte de Teresina e chega a São Paulo. A Balada piauiense acontecerá, via on-line, dias 24 e 25 de agosto.

[10] A homenageada deste ano é a poeta Geni Guimarães. Salvador e São Paulo se juntam e realizam a décima quinta Balada Literária de 3 a 7 de setembro. Tudo virtualmente idem. Mais detalhes em breve e salve e salve e cuidem-se e beijabraços.

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TODA LITERATURA É PORNOGRÁFICA

Trepara loucamente àquela noite. E é mesmo? Quem trepara não trepou. O pretérito-mais-que-perfeito é ótimo para isso. Para simular. E dissimular. Dentro de mim uma sensação de prazer. E é mesmo? Não sei o que é pior. “Dentro de mim” ou “a sensação”. Este ensaio de hoje está ficando pornográfico. Uma esculhambação. Serei objetivo e direto ao ponto G então. Diga logo o que quer e vá embora. “Dentro de mim” é, de fato, de onde já vem a sua poesia e a sua prosa. O excesso de “dentro” e o excesso de “mim” sempre me parecem redundantes. “Sensação”, melhor evitar. Prazer, tristeza, vazio. Sei lá. Por que não contar logo de uma vez? Quero aprender como trepar. Todo leitor e leitora é curioso. Na hora do gozo, é explícito no que há de implícito. Há frases tão gerais que correm o risco de não dizer. De não tocar o corpo dos personagens como se devia. O segredo é afunilar. Disse uma vez o poeta João Cabral. Prefiro a palavra “manga” à palavra “alegria”. Grife em seu texto tudo que for intensidade falsa. O choro copioso. O desespero. Os olhos arregalados. A dor no peito. O arrepio na espinha. O silêncio absoluto. O gemido gutural. E alto. Tudo, repito, feito para esconder o jogo. Exagera-se para chamar a atenção do leitor. Querendo que ele sinta o que, na verdade, nem o escritor está sentindo. Eu, quando chego a um livro, sou aquele vizinho. Olhando pela janela o movimento. Aquele que chega a qualquer momento e fica só de rabo de olho. No que você está aprontando. Aquele que chega vasculhando a geladeira. Por debaixo dos panos. Alguém que, do jeito que você costuma escrever, parece não desejar por perto. O leitor ou leitora que chega quando menos você espera. Lá está o autor pelado na sala. No quarto, a roupa largada. No teto, o espelho que a tudo vê. Olha quem chegou para a festa. Deixa eu verdadeiramente trepar com você.

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Revisitando aqui as fotos de Joel-Peter Witkin.

Há muito tempo sonho com uma imagem dele para a capa de um livro meu.
Figuras narrativamente perturbadoras. Surreais que são.

Em branco e preto a maioria.

Witkin é norte-americano, nascido em 1939.

Ele escolhe os temas, os personagens, compõe cenários, iluminação. E clica a natureza morta.

A natureza enclausurada – por dentro e por fora.

Tudo, ao que parece, desde sempre, um “clique” em quarentena.

Ave nossa!

De tão densas e já repletas de palavras são as fotos, que deve ser essa a minha dificuldade. Olhar e saber o que a “pintura” deste grande artista ainda não diz.

Uma hora, quem sabe?

Meu texto ganhe um pouco de sua cicatriz.

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Pintura de Aldemir Martins

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BOI NA LINHA

As amigas e amigos mais chegados sabem que coleciono pinguins. Caveiras. E bois.

Bois formam a coleção mais abstrata (embora sejam de um Pernambuco bem concreto).

Abstrato porque sobre eles eu junto poemas, canções, narrativas. Daí o boy do meu romance Nossos Ossos.

Daí João Cabral, Manuel Bandeira, Chico Buarque, Belchior e, mais recentemente, o livro Mugido de Marília Floôr Kosby.

E eu soube, não faz três semanas, de poesias, versando a partir desta tema, assinadas pela poeta potiguar Zila Mamede.

Eta danado!

Na minha live de domingo passado conversei sobre esta mania com o cantor e compositor Maurício Pereira.

Por favor, corram para ver gravada a nossa conversa lá no meu Instagram.

Em certo instante, peço que ele, acompanhado do filho músico Chico Bernardes, mostre para nós o clássico Ser Boi, do disco Pra Marte de 2007.

Trecho da letra segue abaixo.

De minha parte, continuo seguindo a boiada.

Salve e salve e aquelabraço.

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SER BOI

Ir pra Minas e ser boi lá / Mascar, pastar, sorrir, pensar / Olhar de rabo de olho / (Se é que boi tem isso) / Os carros voando na BR / Tentar perceber o motor / Essas pessoas que têm alma / Eu me pergunto por quê / Elas vêm e vão para Brasília / Em tamanha velocidade / Ser a encarnação do boi Esperar a minha hora chegar / Sem pressa e sem pressão / Divagar bem devagarinho

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