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Archive for fevereiro \26\UTC 2014

MORRE A ESPANHA

Paco

Eu era adolescente. Ainda no Recife. Veio-me ao ouvido o violão de Paco. Distante. E tão próximo. As cordas de algum passado. Nem sei de quanto tempo. Fiquei tomado. Posto em febre. Fui atrás de discos de Paco de Lucía. Ali no bairro pobre de Água Fria. Até que encontrei. E ouvia e ouvia. E levantava à vista adiante. Era um som que eu tinha, dentro do peito, e não sabia, os gritos de guitarra, cigarra, assim, trinado da minha terra natal. Um artista carrega com ele o pulso de sua origem, etc. e tal. As cores de seu lugar. A infância. Uma saudade tamanha. Eu sentia. De um país em que eu não vivia. Paisagem onde milagrosamente eu renasci. Paco era Espanha. E era Sertânia. E era Pernambuco. Flamenco. E lamento nordestino. Eu, anos depois, fui conhecer Barcelona, Granada, Sevilha, Madri. Por causa de Paco. E de seu irmão, Pepe. As poeiras que eu avistava. Quando Paco dedilhava. Meu Cristo! E também quando seu irmão ruminava. Soltava a voz. Encalacrava, na língua, a minha língua. Ave nossa! Obrigado, Paco de Lucía, por sua alma, sonora. E eterna. Em minha vida. Eu, quando jovem, você cuidou de cuidar de minhas feridas. Curou-me com sua intensa energia. Descanse em paz. O mundo faz silêncio, para você, nesse dia. Valeu por tudo e maravilha!

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MEU PARCEIRO MUSICAL

Enzo

Lembram-se de um pôste aqui em meu blog sobre uma letra de música? Uma que eu havia sonhado com ela. Pois bem: virou mesmo parceria musical. E das boas, etc. e tal. Quem leu a letra e topou o desafio e gravou a canção foi o Enzo Banzo. A saber: Enzo é cantor e compositor e faz parte da porreta banda mineira Porcas Borboletas. Que luxo e orgulho! Para ouvir como ficou a música, finalmente, clique aqui em cima. E a letra, já com a leve adaptação/ajuste de meu mais novo parceiro (foto acima), você lê e cantarola abaixo. E vamos que vamos. E valeu, Enzo, e parabéns e aquelabraço.

*

TUA MÚSICA DE AMOR
Letra: Marcelino Freire
Música: Enzo Banzo

faz uma música para mim
estou cansada de cantar
eu sozinha
em teu ouvido

faz uma canção só minha
para eu gravar na memória
uma letra assim sonora
sincera simplória

chegou a tua hora
escreve aí vai um refrão
um refrão que toque
fundo no meu coração

eu preciso deste teu carinho
até o fim
eu preciso deste teu carinho
que tal um refrão assim?

uma música para a gente dançar
coladinho meu bem até amanhecer
um bolero que vai e vem
sei que ainda vai dar tempo

faz por favor correndo
para que o nosso amor não acabe
sem eu nunca ouvir a tua voz
partir neste silêncio

*

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GABO, O CAÇADOR

BarBarran

Gabriel Garcia Márquez saía para caçar. Com os amigos, assim, em Barranquilla. Cidade colombiana em que ele viveu por um tempo. Pois bem: o grupo, depois de voltar da caçada, sentava para beber. Comemorar os animais abatidos. Para mentir sobre as aventuras. E, sobretudo, para colocar a prosa e a poesia em dia. Falavam de livros, lançamentos. De política e tudo o mais. E a parada obrigatória dos caçadores era o bar La Cueva (imagem acima). Nesse bar, aliás, há uma marca histórica de dois tiros na parede. Disparados durante uma calorosa discussão. Em nome da arte, é bom que se diga. Meu Cristo! Sei que eu não contei a história direito. Mas fica aqui o registro. Fraterno e afetivo. Apenas para dizer que era nesse lugar boêmio em que aconteciam os debates do VIII Carnaval Internacional de Las Artes, em que estive no último final de semana. Hoje, o bar virou uma fundação cultural. Com várias fotos desse grupo de amigos. E repleta de originais de livros e pinturas, etc. Para saber mais sobre a Fundação La Cueva, é só clicar aqui em cima. E, só para terminar, vale a pena ressaltar: o local continua funcionando como bar. Que maravilha! Um espaço, assim, etílico-literário, tombado (e, principalmente, tomado) como patrimônio cultural da cidade. Um brinde à cidade de Barranquilla e aquelabraço grato e salve, salve.

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POEMINHA PARA O RECIFE

MFreireBB

o ponteiro do relógio
quando segue atrás da hora
está correndo para lá

quando entro em uma rua
na esquina onde ela dobra
segue rumo para lá

as voltas que o mundo dá
para todos os caminhos
estou voltando para lá

quando fecho bem os olhos
ou quando acabo de acordar
já fui embora para lá

lá sempre foi o meu destino
desde eu menino eu sinto
aqui nunca foi o meu lugar

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JOÃO CABRAL, O ENSAÍSTA

Clarice Lispector não era boa de títulos. Pedia sempre a opinião do amigo Fernando Sabino. Em uma das cartas, trocadas entre eles, ela pergunta de seu romance, intitulado provisoriamente de “A Veia no Pulso”. Sabino logo solta o verbo: “Aveia no pulso. Radical, não?”. Quem sabe a edição não teria, à época, patrocínio da Quark? Mas Clarice, ao que parece, na surdina, depois de ouvir a opinião do amigo mineiro, escreveu também para o pernambucano João Cabral de Melo Neto. É hilária a resposta do poeta. Ele que, em uma das outras cartas a ela, diz que gostaria muito de abandonar a poesia e escrever só ensaios. Eta danado! A defesa que ele faz do título “A Veia no Pulso” (que depois acabou virando “A Maçã no Escuro”) é muito engraçada. Segue trecho da carta, datada de 6 de fevereiro de 1957. Vale muito a pena uma olhada, abaixo. Você que ainda não sabe qual título dar ao seu livro, minha amiga, meu amigo. E por hoje é só. E aquelabraço.

*

“Quem foi o errado que foi contra “A veia no pulso”? Acho que V. não deve mudar, absolutamente. Em 1º. lugar porque veia no pulso não é, como V. diz, a mesma coisa; em 2º, porque A veia não é absolutamente cacófato. Cacófato é o som ridículo ou feio. “A veia”, no máximo pode parecer ambíguo, o que não é a mesma coisa. Mas a ambiguidade não é motivo para tirar e sim para deixar. E mesmo que ambiguidade é essa? Se o nome do livro fosse “Aveia no pulso”, ainda se poderia criticar sob o ponto de vista de ser ambíguo ou causador de mal-entendido. Mas o nome é “A veia”, isto é, a coisa normal que há no pulso e portanto não há por que mudar nada. Se na língua falada fôssemos evitar todos os sentidos duplos provocados pelo artigo ou pela preposição “a”, teríamos de ficar calados. Por outro lado, só um idiota ouvindo A/VEIA NO PULSO pode entender Aveia no pulso. Falo no que ouve. E a língua é só para ser ouvida? Essa que deram a V. é o tipo da opinião que não devemos levar a sério. Creio que V. não deve dar nenhuma bola e dizer que é aveia no pulso mesmo. Aveia que o personagem leva para que os burros venham comer-lhe na mão. Você sabe o que passou no Recife, há muito anos, com um velho sendo numa exposição de pintura de Cícero Dias?
O velho: que significa este quadro?
Cícero: Uma partida.
O velho: Uma partida de quê?
Cícero: Uma partida de trem.
O velho: Uma partida de tênis?
Cícero: Isso mesmo. Uma partida de tênis.”

*

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POEMINHA PARA QUANDO O AMOR ACABA

tire o meu retrato da parede
a parede da sala
a sala da casa
fique a casa nua e crua

jogue fora a nossa rua
a lua lá em cima caia
venha abaixo
sobre nossas cabeças

nosso bairro fora do mapa
a cidade tomada pelas águas
suma na enxurrada
desapareça

nosso estado de espírito
nosso país de porco
tudo morto ao redor

explosão de fim de mundo
a vida só um pó de estrelas

vamos viver juntos
quem sabe meu amor
longe daqui

no começo de
um outro planeta

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MICROCONTOS PERDIDOS

Eu tenho vários caderninhos em que anoto microcontos, microfrases, filosofias baratas, ave! Fazendo uma faxina, encontrei alguns um tanto pornográficos, que eu nem me lembrava que havia escrito. Meu Cristo! Seguem seis deles abaixo. E vamos que vamos e aquelabraço.

*

[1]

– Quanto é?
– 20 cm.

[2]

Fazia aquela cara de criança
mas nada de chupeta.

[3]

– Põe.
– Só se for os ovos.

[4]

Essa sua camisinha
não cabe em mim.

[5]

O casal de bêbados sempre pensa
que está numa suruba.

[6]

– Me come, vai.
E a terra comeu.

*

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